A César o que é de César (Parte 1)

Atualizado: 12 de Set de 2018

Crise política. Este tem sido um dos temas mais predominantes nos noticiários de nosso país e em diversos outros. Desde os mais desenvolvidos, como é o caso dos Estados Unidos da América com a surpreendente eleição de Donald Trump, até os mais necessitados, como mostram as novas eleições presidenciais no Haiti.


Protestos têm se tornado cada vez mais comuns, frutos de uma insatisfação generalizada que as populações dos mais variados países têm com relação a seus governos e governantes. No Brasil, ao mesmo tempo em que ativistas a favor da intervenção militar invadem o Congresso Nacional, estudantes ocupam escolas e universidades para protestar contra novas legislações, mostrando que tal insatisfação atinge diversos grupos de nossa sociedade.


Escândalos de corrupção não são privilégios de políticos brasileiros, como mostram, dentre muitas outras, as recentes investigações da presidente da Coréia do Sul. Para agravar a situação, mesmo membros de partidos com visões diametralmente opostas acabam se juntando para salvar companheiros envolvidos em investigações de corrupção, pois isto pode fornecer a eles alguma vantagem política no futuro. Tais escândalos contribuem ainda mais para o crescimento dessa insatisfação, inclusive colocando em dúvida a administração dos impostos que tanto pesam no bolso dos trabalhadores.


Apesar de tudo isso parecer se agravar a cada dia em nosso país, este tipo de situação está longe de ser algo novo na história. Na realidade, uma pergunta relativa à carga tributária foi feita ao próprio Jesus Cristo, no episódio narrado a seguir:


“E enviaram-lhe alguns dos fariseus e dos herodianos, para que o apanhassem em alguma palavra. Chegando, disseram-lhe: Mestre, sabemos que és verdadeiro e não te importas com quem quer que seja, porque não olhas a aparência dos homens; antes, segundo a verdade, ensinas o caminho de Deus; é lícito pagar tributo a César ou não? Devemos ou não devemos pagar? Mas Jesus, percebendo-lhes a hipocrisia, respondeu: Por que me experimentais? Trazei-me um denário para que eu o veja. E eles lho trouxeram. Perguntou-lhes: De quem é esta efígie e inscrição? Responderam: De César. Disse-lhes, então, Jesus: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. E muito se admiraram dele.” – Marcos 12.13-17


Inicialmente, é interessante notar que a pergunta utilizada para “experimentar” a Cristo foi feita por grupos com visões políticas totalmente diferentes, mas que tinham um objetivo em comum de “apanhar” Jesus “em alguma palavra”. Os fariseus eram líderes religiosos judeus que não toleravam a ocupação romana e a imposição de sua cultura em Israel, enquanto que os herodianos serviam ao rei Herodes, governante suportado pelos romanos. Era o equivalente da época a membros de partidos políticos de oposição e de situação se juntando para tentarem desacreditar um inimigo político em comum.


Como frequentemente vemos em debates políticos na televisão – em que, muitas vezes, não importando a maneira com que o político responda, ele será criticado – a pergunta feita por esses dois grupos totalmente opostos não possuía uma resposta fácil em que um “sim” ou um “não” bastariam. De fato, ela era muito mais profunda do que apenas perguntar se devemos ou não pagar impostos. Os impostos que estavam sendo pagos ali não seriam apenas drenados por bolsos de governantes corruptos, mas também financiariam ocupações brutais de nações inteiras como ocorrera com Israel. O dinheiro dos impostos ia para o pagamento dos exércitos que ameaçavam a liberdade religiosa dos judeus, perpetuando um reinado de terror em sua própria terra.


Contudo, mais inteligente ainda do que a pergunta, foi a resposta dada por Cristo e, com base nela, tiraremos as seguintes conclusões:


1. Um governo infiel é um governo legítimo

Com a vitória de Trump, muitas pessoas no mundo afora têm criticado o processo democrático americano como forma de escolher um governo. Questiona-se o fato de a maioria da população ter na realidade votado em sua oponente, colocando em dúvida a legitimidade de sua presidência. Voltando à realidade de Jesus, nem de perto a maioria da população de Israel suportava o governo de César. A legitimidade de um governo pagão era impensável para a maioria esmagadora dos judeus, principalmente em se tratando de um regime opressor como o romano. Entretanto, para Cristo, César era sim o governante legítimo daquela região, sendo digno de receber os devidos impostos. Jesus sabia que a legitimidade de um governante não é dada por eleições diretas ou indiretas, por ausência de corrupção, por uma boa administração dos bens públicos, mas pelo governante último de todo o universo: Deus. Jesus deixaria isto ainda mais claro ao dizer a Pilatos: “nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fosse dada.” (João 19.11)


2. O cristianismo não tem fronteiras

Nos dias de hoje, o nacionalismo tem sido um tema de grande discussão nos círculos políticos. As práticas protecionistas defendidas por Trump, a saída do Reino Unido da União Europeia e a ascensão de grupos conservadores como o de Le Pen na França são apenas alguns exemplos de como esta tem sido uma tendência no cenário político mundial. A ideia de que os recursos de uma dada nação estão sendo levados por outra é cada dia mais inadmissível, o que leva líderes a utilizarem argumentos patrióticos e até mesmo étnicos para levantar barreiras. Entretanto, nesta passagem, Cristo caminha numa direção completamente oposta. Ao contrário do que muitos pensaram que faria, Ele não se identificou com os problemas políticos judaicos, não se utilizando de argumentos nacionalistas, antes, cumpriu a lei de um governo estrangeiro, cujo objetivo era justamente retirar as riquezas de seu povo, levando-as a um país cujas semelhanças culturais e étnicas eram mínimas. De fato, Cristo aqui nos mostra que este tipo de semelhança não é o que importa no Reino de Deus. Ele aponta para o fato de que o povo de Deus pode viver em qualquer país do mundo, sob qualquer tipo de governo, em meio a qualquer grupo étnico, pois, de maneira última, não pertencemos a esse mundo e a nossa identidade em Cristo é muito mais relevante do que nossas raízes étnico-culturais e as fronteiras que as dividem.


Continua na próxima semana...


Editorial de André Negrão



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