A cura pelo perdão

“-– Papai, não quero mais ser amiga da Tahissa!” Lembro-me que essa foi a frase que minha filha, na época com nove anos, me falou quando teve uma “briguinha” com sua melhor amiga. As duas meninas eram como “unha e carne”, faziam tudo juntas, as brincadeiras, os lanchinhos, os passeios de bicicleta... Ao questioná-la sobre o acontecido, percebi que o real motivo da discussão era algo sem muita importância.


Então, aproveitei o momento para acalmar o coraçãozinho dela e explicar-lhe que não valeria a pena continuar sofrendo por algo tão pequeno perto daquela grande amizade que havia entre elas. Ela ficou me olhando um pouquinho e, de repente, sem falar nada, saiu correndo. E, pela janela da sala, pude ver as duas sentadas na calçada conversando e, logo em seguida, se abraçaram. Confesso que fiquei impressionado com a rapidez com que as duas se perdoaram.


Infelizmente, nós crescemos e passamos a entender que as atitudes singelas da infância não são mais tão fáceis de serem praticadas. Nosso orgulho e egoísmo que, até então, eram contidos pela simplicidade de coração e humildade de espírito, agora produzem e controlam nossos desejos e expectativas pecaminosas que, em geral, se amoldam também com os interesses mundanos de uma sociedade caótica, desejosa de levar vantagem em tudo, ávida por ganhar sempre e quase nada partilhar, onde muitos não conhecem limites, nem critérios para alcançar seus propósitos.


Assim, mergulhamos no erro e na dúvida e, como senhores de si e juízes de todas as coisas, somos compelidos a sempre minimizar nossa culpa e a não enxergar nossas falhas.


Começamos, então, a sentir dificuldades nos relacionamentos, especialmente, no que diz respeito ao perdão.


Ressentimento, amargura, mágoa e ira intoxicam nossa alma e corrompem nosso espírito, porque despertam em nós um sentimento doentio de vingança, movido pelo desejo urgente de causar sofrimento naqueles que nos maltrataram ou nos feriram, para que eles provem também do mesmo fel que colocaram em nossa boca. Mas, ao contrário do que imaginamos, o efeito da desforra, embora produza alívio e prazer momentâneos, faz o coração doer e a mente agonizar pela falta de paz, o que nos leva, tragicamente, a conceber os leitos de hospitais como a nossa maior vocação.


Como bem escreveram os autores Ken Sande e Kevin Johnson: “A falta de perdão é o veneno que tomamos, esperando que os outros morram” (O Pacificador e os conflitos do dia a dia – Ed. Crescendo, 2011, pág. 101).


A menos que haja uma intervenção divina, essa, em maior ou menor grau, será sempre a nossa condição, fruto da condenação proclamada pela sentença de Gênesis 3.15.


Somente Deus tem o antídoto definitivo para nos curar. Não se trata de uma poção ou comprimido, mas de uma pessoa, alguém que “tomou sobre Si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre Si...” (Isaías 53.4). Jesus tem o único remédio capaz de libertar nossa mente e sarar para sempre o nosso coração, e ele está na química sagrada de Seu sangue derramado na cruz: “Mas Ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre Ele, e pelas Suas pisaduras fomos sarados” (Isaías 53.5).


O exemplo de um Deus que, oprimido e humilhado, poderia com um simples gesto exterminar todos os seus perseguidores, mas sequer abriu a boca (Isaías 53.7), antes a Si mesmo se esvaziou, assumiu a forma de servo e, tornando-se obediente até a morte e morte de cruz (Filipenses 2.7,8), suplicou o perdão de seus inimigos (Lucas 23.34), nos humilha e envergonha, mas nos ensina também a preciosa lição de que uma vida amadurecida, saudável, útil e feliz é caracterizada pela constante disposição de amar, de se doar e de perdoar sempre.


Estamos nos aproximando do Natal, que representa um tempo especial de reconciliação, de trégua e, acima de tudo, de perdão, já que nos lembramos da simplicidade da manjedoura que abrigou o maior de todos os nossos presentes: a oportunidade de sermos perdoados.


Seria muito bom, então, aproveitarmos a ocasião para fazer um balanço das nossas atitudes e expectativas, avaliar os erros e acertos e clamar ao Senhor para nos ajudar a ser mais tolerantes, amáveis, bondosos, compassivos uns para com os outros e, especialmente, a nos perdoar mutuamente, assim como Ele nos perdoou em Cristo (Efésios 4.32).


Não é algo fácil, mas, quando reconhecemos a nossa total incapacidade de amar e perdoar pelas nossas próprias forças e entendemos que somente o amor triúno de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito é capaz de nos conceder esses dons maravilhosos, é que encontramos forças para buscar a verdadeira reconciliação.


É certo que isso não nos fará voltar a ser crianças novamente, mas, pela graça e misericórdia do Senhor, nos tornaremos semelhantes a elas (Mateus 18.3), humildes, cheios de esperança, amorosos, perdoadores e livres para vivermos uma vida saudável, sem mágoa, sem indiferença, sem ódio, sem amargura, sem ressentimento e, acima de tudo, sem dor de coração.


Editorial de Walter Feliciano




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