A glória tangível

Uma mesa consiste num tablado plano sustentado por quatro apoios longos. Aves são animais que botam ovos, possuem penas e bico, e costumam voar. Uma bicicleta é um veículo de duas rodas montadas sobre uma estrutura plana, normalmente não-motorizada e que pode chegar a velocidades razoáveis. Deus é... Pessoas no mundo inteiro e em todas as épocas tentaram responder essa pergunta de maneira satisfatória, mas as repostas são tão diversas que muitas vezes esse assunto traz mais divisão do que concordância. Isso nos leva à pergunta: se conseguimos definir tão bem todas as coisas ao nosso redor, como não conseguimos definir a Deus tão bem assim? Que recursos podemos usar para definir a Deus? Que recursos Ele usa para isso?


A carta de Deus

Alguns textos nos ajudam a entender um pouco mais o cenário. Em Romanos 1.20, Paulo é bem claro em afirmar que “os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas”.


Fazendo um paralelo, Deus escreve uma carta aberta a toda humanidade, uma carta com uma mensagem muito clara: Há um Deus criador, grande e poderoso, um Deus que é pelo menos tão maravilhoso quanto a soma de todas as coisas maravilhosas que conhecemos.


Olhando para o Antigo Testamento, logo no início do Salmo 19, Davi recita: “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos”. Em outras palavras, Davi reconhece que há algo maravilhoso na natureza criada, algo que nos leva ao espanto, ao deslumbramento. É algo que ressoa em nossos corações e, como marca de seres criados à imagem e semelhança de Deus, nos faz ecoar suas palavras em Gênesis: “Isso é bom!”.


Em resumo, a criação pode ser vista como uma poderosa ferramenta de comunicação de (e sobre) Deus, especialmente pelo fato de que tanto nós quanto ela vêm de uma mesma fonte. Nisso reside sua efetividade, estamos tão ligados à criação que dificilmente entenderíamos Deus se tudo que Ele dissesse fosse desassociado dela. É nela que vivemos e experimentamos todas as coisas, boas e ruins. Por meio dela entramos em estado de admiração quando vemos algo belo, mas também é nela que choramos a morte e a destruição. Em toda e qualquer experiência que passamos por aqui há algo sendo comunicado, algo a ser entendido acerca de Deus.


O Deus que se define por analogias

Aqui voltamos à pergunta inicial: Por que não conseguimos definir a Deus como definimos todas as coisas ao nosso redor? Ora, simplesmente porque há uma diferença essencial entre Deus e todas as outras coisas ao nosso redor: Ele não faz parte das coisas criadas, mas é o criador de todas elas (Ele é o que é – Êxodo 3.14). Ao invés de ser definido, Ele mesmo define todas as coisas, inclusive nós mesmos. A única esperança que temos é que Ele mesmo se defina de alguma maneira que nos ajude a conhecê-Lo melhor em sua profundidade e que, ao mesmo tempo, seja claro e tangível para nós. Olhando para as Escrituras, vemos que Deus faz isso de maneira muito singular.


As Escrituras completam a frase “O Senhor é” de diversas maneiras diferentes e cada uma delas é como uma pincelada de uma pintura. O Senhor é como um pastor que cuida de suas ovelhas (Salmo 23.1), olhando para um pastor fiel e seu rebanho aprendemos mais sobre o caráter de Deus e seu zelo conosco. Ele também é sol e escudo (Salmo 84.11), e temos uma ideia melhor de como Deus ilumina a escuridão e protege o seu povo ao olhar para esses elementos. Ele é como um leão que não se intimida diante do perigo e como uma ave que protege seus filhotes (Isaías 31.4,5). Ele é como uma fortaleza, como uma rocha firme para os pés (2 Samuel 22.2). Ele é fogo consumidor (Deuteronômio 4.24). Ele é um cântico (Salmo 118.14), e suas ordenanças mais doces que o mel (Salmo 19.9,10). E, em última instância, Ele é o carpinteiro de Nazaré. Deus usa todas essas coisas que podemos olhar, tocar, ouvir e sentir para nos revelar realidades muito maiores do que os nossos sentidos. Isso ganha ainda mais força na encarnação: agora Deus tem carne, Ele também sente fome, sede e dor nos pés depois de uma longa caminhada. Agora Ele pode ser tocado, ouvido e até mesmo ferido. É o Deus mais próximo de nós que qualquer um poderia imaginar.


Deus que se experimenta no dia a dia

Diferentemente de diversas linhas filosóficas, o cristianismo entende a criação como ela deve ser: não algo que se opõe ao mundo espiritual, mas que completa nosso entendimento sobre ele. Deus criou todas as coisas para revelar a sua glória, e nossos sentidos redimidos são uma parte essencial na nossa experiência espiritual. Deus escolheu nos criar como matéria em um mundo material, e nossas dores e alegrias nessa esfera são expedientes dEle para nos mostrar um pouco mais de si no nosso dia a dia, do café da manhã até o último bocejo de sono. Assim, todas essas coisas, desde a doçura de bolo de milho com goiabada ou um gole de água gelada num dia quente até a fome e sede mais brutais podem nos levar a um conhecimento mais profundo de Deus. Basta andarmos com olhos atentos, encarando cada uma dessas coisas como ferramentas, como setas que nos apontam a verdadeira glória.


Editorial de Petrônio Nogueira



Mais sobre esse assunto:

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