As três funções da lei

Atualizado: 17 de Set de 2018

O livro de Victor Hugo “Os Miseráveis” apresenta dois personagens que se contrapõem e confrontam por toda a narrativa, Jean Valjean e Javert. A história, mesmo o filme, é notável e bela, digna de um clássico. Mas algo curioso a observar é o relacionamento destes dois homens com a lei.


Jean Valjean é um homem que sofre por causa da lei, ao cometer um delito ele recebe severa pena e ao ser liberto, depois de alguns contratempos, busca obedecer a lei de todas as formas que pode, sem nunca obter a segurança de quem ele é. Javert é um homem que sempre obedeceu a lei e se beneficiou muitas vezes por causa disso, se tornou um policial orgulhoso e implacável.


Ao olhar para estes dois homens, tenho a impressão de estar olhando para os dois extremos do relacionamento dos cristãos com a lei. No mundo evangélico atual parece existir uma confusão generalizada em qual a função da lei. Afinal, para que serve a lei de Deus?


1. A lei como nosso tutor

A primeira função da lei, algo que Valjean e muito menos Javert entendiam, é de nos conduzir a Cristo. Paulo nos explica na carta aos Gálatas:


"Qual, pois, a razão de ser da lei? Foi adicionada por causa das transgressões, até que viesse o descendente a quem se fez a promessa, e foi promulgada por meio de anjos, pela mão de um mediador. Mas, antes que viesse a fé, estávamos sob a tutela da lei e nela encerrados, para essa fé que, de futuro, haveria de revelar-se. De maneira que a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé. Mas, tendo vindo a fé, já não permanecemos subordinados ao aio." - Gálatas 3.19, 23-25


O tutor ou aio, nos tempos de Paulo, era um homem contratado que protegia o filho do mestre contra o mal, instruía nas questões morais, no uso da linguagem e aplicava a disciplina sempre que necessário. O termo combina a ideia de disciplina estrita, submissão e instrução.


A ideia que Paulo quer transmitir é que neste sentido a função da lei é provisória. A criança eventualmente crescia e se via livre do aio. Portanto, a primeira função da lei é de nos prender, cativar e instruir a ver, pela ação do Espírito Santo, que para sermos libertos devemos crer naquele que se tornou maldição em nosso lugar, levando a penalidade da lei do nosso pecado, sendo crucificado em um madeiro (Gálatas 3.13).


2. A lei refreia o mal

A segunda função da lei de Deus é refrear o mal do mundo e isso é visto em todas as culturas do mundo em maior e menor grau. Mesmo os incrédulos, por causa da graça comum que Deus dispensa no revelar de suas leis, refreia a atividade pecaminosa do homem.


Temos diversos exemplos disso no nosso dia a dia, um deles é aquela famosa mensagem nos banheiros: “Lembre-se de que outros utilizarão este sanitário depois de você”. Às vezes não nos damos conta de que essa frase é outra forma de dizer Mateus 22.30: “Ame o teu próximo como a ti mesmo”.


Portanto devemos nos lembrar que um descrente ainda reflete, mesmo que de maneira distorcida, a imagem de Deus. Na carta aos Romanos, o apóstolo Paulo nos recorda que o homem sem Deus tem essa norma da lei gravada no coração:


"Quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se." - Romanos 2.14-15


3. A lei como treliça para a santidade

Podemos comparar como a lei nos guia em conhecer a vontade de Deus e crescer em santidade com uma treliça. A planta usa a treliça para crescer de forma saudável e para o alto, algo que seria impossível sem a treliça. Porém a vida espiritual, nutrida pela água do Espírito, está na planta e não na treliça. Mas uma treliça organizada e bem dimensionada deve revelar as ervas daninhas que devem ser removidas e as áreas em que a planta precisa crescer.


Como cristãos não estamos mais debaixo da lei de forma condenatória, pois ao crermos que o Filho de Deus foi condenado no nosso lugar passamos a ser filhos de Deus. Neste sentido, ainda estamos debaixo da lei de Cristo, buscando agora agradar e honrar nosso novo Pai, o Deus eterno e santo.


Um versículo muito conhecido de nossa igreja elucida este ponto de forma bem clara:


"Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra."

2 Timóteo 3.16-17


Diante da confusão atual sobre a lei, mesmo no meio evangélico, que Deus nos conceda a graça de permanecermos firmes nos propósitos que Ele criou para Sua santa lei. Que possamos viver e ensinar que a lei imutável de Deus condena e conduz o perdido a Cristo, refreia o mal do mundo e guia o crescimento de santidade do cristão.


Editorial de Leonardo Cordeiro



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