Crentes Revitalizados: Domínio Próprio

Passamos os últimos editoriais explorando um pouco as características do crente revitalizado, ressaltando como é a vida de um cristão frutífero. O último tema que iremos abordar nessa série é o Domínio Próprio, a última característica do fruto do Espírito descrito em Gálatas 5.22, 23. Comparando com os tópicos anteriores, esse é provavelmente o menos atraente. Se passarmos alguns minutos assistindo comerciais na televisão, é praticamente certo que não veremos nenhum nos chamando a não amar, ou a não praticar a bondade (mesmo que esses conceitos sejam distorcidos atualmente). Mas não irá demorar até vermos alguém nos chamando a ceder aos nossos impulsos, ou mesmo a satisfazer os nossos desejos; nesse contexto, “irresistível” é um dos jargões comuns que tentam nos convencer a atropelar aquilo que consideramos razoável, e nos entregar a algo que irá nos trazer prazer imediato. Como crentes revitalizados, como devemos reagir quando agentes externos, ou nosso próprio coração, nos chamam a satisfazer vontades que não estão de acordo com as Escrituras? Para entender isso melhor, devemos primeiro entender que nem todo desejo é ilícito, e que Deus não nos chama a uma vida de privação total. A seguir, vamos ver que o domínio próprio está muito mais relacionado com amar aquilo que Deus ama, e odiar aquilo que Ele odeia.


Domínio próprio não é ascetismo

Aqui é importante entendermos o contexto da epístola aos Gálatas. O grande tema da carta é uma defesa da salvação somente pela fé e a suficiência de Cristo, diante do ensino de falsos mestres que tentavam inserir práticas judaicas (como a circuncisão e o guardar de dias) na vida da igreja. No desenvolvimento do seu argumento, Paulo afirma, se referindo a tais práticas, que “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão” (Gálatas 5.1). Uma advertência similar é dada à igreja de Colossos, que passava por um contexto parecido. Ainda sobre essas práticas, Paulo diz que “tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade” (Colossenses 2.23). Muitas religiões ainda se baseiam no ascetismo (um autocontrole estrito do corpo, com a negação de prazeres de maneira geral) como uma forma de alcançar a Deus. O judaísmo, por interpretar a Lei Mosaica de maneira equivocada (ignorando seu cumprimento em Cristo), também possuía traços ascéticos. A crítica de Paulo aqui é que tais práticas, por elas mesmas, não produzem em nós uma vida santa; elas não têm poder para restringir o pecado, nem para levar alguém a Deus. O ensino bíblico verdadeiro é que Cristo é o único caminho para Deus (João 14.6; Hebreus 10.12), e somente a ação do Espírito pode nos capacitar na luta contra o pecado (Romanos 8.11).


A análise dos desejos do nosso coração pode ser algo complicado, mas podemos afirmar de maneira segura que existem desejos lícitos, que podem ser satisfeitos em concordância com a Palavra de Deus, por exemplo, veja o contido em 1 Coríntios 7.4, 5 e 10.31. Existem maneiras corretas de se interagir com a criação de maneira saudável, tirando proveito das coisas que Deus nos deu, sem dar margem ao pecado. E é justamente nesse contexto que o domínio próprio se torna importante.


Domínio próprio se relaciona com amar o que Deus ama...

No mesmo capítulo de Gálatas, Paulo complementa a sua exortação à liberdade poucos versos depois, afirmando que “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor” (Gálatas 5.13). Note que a liberdade cristã, mesmo que em contraste com o ascetismo, não pode ser usada como desculpa para fazermos o que quisermos a hora que quisermos (o que também é uma forma de escravidão). Ao contrário, no contexto da liberdade cristã, domínio próprio deve ser exercido para dirigir nossos esforços para o amor mútuo, não para satisfazer os desejos da carne. Paulo expande um pouco desse tema em Filipenses 2, ensinando como o amor se demonstra de maneira prática:


“Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo. Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros.”

(Filipenses 2.3, 4)


Note que isso vai na contramão da satisfação irrestrita das nossas vontades. De fato, o amor cristão foca em satisfazer as necessidades do próximo, mesmo que em detrimento de algum potencial prazer, o que é um dos maiores campos de aplicação do domínio próprio. Nos versos seguintes de Filipenses, Paulo mostra como o amor de Deus foi exemplificado de maneira perfeita em Cristo, que se humilhou para satisfazer a nossa maior necessidade, a nossa redenção. Considerando isto em conjunto com os versos anteriores, fica claro que o alvo do amor de Deus deve ser exatamente o mesmo alvo do nosso amor. E isso se aplica de maneira especial à sua igreja. Como uma comunidade de discípulos redimidos por Cristo, nossa preocupação maior deve ser com as necessidades daqueles por quem Cristo deu a Sua vida. E não podemos ser ingênuos aqui — isso certamente irá nos custar algo, e será impossível cumprirmos esse mandamento sem domínio próprio que vem do Espírito.


...e odiar o que Deus odeia.

Assim como a cruz foi a maior demonstração do amor de Deus para a humanidade, ela também foi a maior demonstração da Sua ira contra o pecado. Nosso pecado foi a causa da separação entre a primeira e a segunda Pessoa da trindade na cruz do Calvário, onde toda a ira de Deus foi derramada de maneira substitutiva sobre o seu Filho. Sangue inocente, sangue do próprio Deus, foi derramado para a nossa redenção. Isso mostra quão sério é o nosso pecado diante de Deus, e deveria ser motivo suficiente para nos fazer andar em obediência. Mas não é bem assim que as coisas funcionam. Mesmo após experimentarmos a graça divina na salvação, ainda passamos por situações em que somos tentados a colocar nossos desejos em primeiro lugar, ignorando não apenas as ordenanças de Deus, mas também o preço que foi pago para nos salvar. Odiar o que Deus odeia nem sempre é fácil; para isso, devemos ser constantemente relembrados do preço que foi necessário para nos salvar, alimentando assim nosso domínio próprio. Isso envolve não só uma mudança de prática, mas de mente e coração, dirigindo nossas vontades para aquilo que Deus deseja, lutando contra aquilo que caracterizava nosso antigo estilo de vida (Efésios 2.1–3). Em cada tentação que se vende como irresistível, devemos lembrar que somente a graça de Deus é, de fato, irresistível, e que Deus nos provê a força para lutar em cada situação (1 Coríntios 10.13).

Ainda em Gálatas, Paulo exorta seus leitores: “[...] andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne” (Gálatas 5.16). Nesse último editorial desta série, é bom relembrarmos que nenhuma das características do fruto do Espírito pode ser atingida de maneira natural, e que somente pelo Espírito podemos ser cristãos realmente frutíferos. Isso não é diferente com o domínio próprio. Saber que Deus nos proveu de todos os recursos para demonstrar tais características em nossas vidas deve nos encher de alegria, e nos motivar a servi-lO de maneira cada vez mais fiel!


Editorial de Petrônio Nogueira