Crentes Revitalizados: Mansidão

“Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor.”

(Efésios 4.1, 2)


Experimentamos um contexto bastante conturbado em nossos dias. Crises econômicas, políticas, sanitárias e tantas outras têm feito parte do nosso dia a dia. Infelizmente, não é raro presenciarmos conflitos entre políticos, nações ou até mesmo entre familiares e amigos. Todavia, o problema não está nos conflitos, mas sim no coração do homem e como ele conduz seus conflitos. Excesso de amor-próprio, orgulho e a falta de amor pelo próximo naturalmente culminam em agressões verbais, ofensas e geram conflitos improdutivos que não agradam a Deus. Fato é que a mansidão não é, definitivamente, uma característica do homem moderno. Este homem não possui amor pelo próximo, seus discursos são de ira e ódio, não está interessado em um crescimento relacional, enfim, a única coisa que importa são seus próprios desejos. Ou seja, será que a mansidão tem sido uma das marcas do cristão nos dias de hoje?


É evidente que a mansidão deve ser uma das marcas do cristão. Entretanto, em meio a este cenário hostil em que vivemos, somos tentados a rotular tais conflitos e comportamentos como algo natural e não pecaminoso, desconsiderando o padrão que Deus definiu para nós. Todavia, ao lermos sua Palavra, somos encorajados acerca da mansidão em inúmeras passagens (Isaías 29.19; Mateus 11.29; Efésios 4.1,2; Tiago 3.13).


As perguntas que ficam, então, é: O que é a mansidão? Por que devemos ser mansos? Como podemos crescer em mansidão? Considere:


Comece pela humildade

Humildade e mansidão frequentemente andam acompanhadas nas Escrituras (Gálatas 5.23 Colossenses 3.12; Mateus 11.29). A humildade é realmente essencial para o crescimento em mansidão — não somente a humildade, mas todas as demais características citadas em Gálatas 5. Porém, à medida em que crescemos em humildade, conseguimos ter uma clara visão de quem somos, de quem Cristo é e de como devemos nos relacionar com as pessoas à nossa volta (Filipenses 2.3, 4).


Por isso, é imprescindível que nos debrucemos na Palavra e desenvolvamos um relacionamento íntimo com o Senhor, algo que demanda tempo e muita diligência. Esse relacionamento cresce progressivamente, é desenvolvido pelo Espírito Santo e confirmado ao longo do tempo à medida em que nos tornamos cada vez mais parecidos com Cristo.


Não é natural, é obra do Espírito Santo

Um caráter manso não é algo natural ou um dom intrínseco ao homem. Pelo contrário, antes éramos filhos da ira.


“Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também.”

(Efésios 2.3)


Nossa natureza é má, pecadora, irada e condenada à ira de Deus. Entretanto, agora, mediante ao sacrifício de Cristo, somos salvos e feitos filhos de Deus, crescendo em santificação e mansidão através da obra do Espírito Santo que opera em nós.


E graças a Deus que essa transformação é realizada pelo Espírito Santo, pois podemos ter a certeza de que essa obra que se iniciou um dia terá fim e sua plenitude na presença de Deus (Filipenses 1.6). Ainda assim, até que esse dia chegue, infelizmente conviveremos com nossa natureza irada lutando contra o Espírito.


A mansidão contrasta a ira justa de Deus com a ira pecaminosa do homem

Tal luta é enfrentada por todos os cristãos. Moisés, considerado o homem mais manso de toda a Terra, também se irou. Lembremo-nos do episódio em que ele feriu a rocha por duas vezes (Números 20.11) enquanto a ordem de Deus era para que ele falasse com ela (Números 20.8). Muitas vezes, somos tentados a pensar que ser manso é ser fraco, porém, não é isso que vemos na vida de Moisés, que mesmo sendo manso, enfrentou o rei do Egito, exércitos poderosos e até mesmo o seu próprio povo.


Mais ainda do que Moisés, Cristo foi o perfeito exemplo de mansidão, e mesmo assim Ele não era fraco:


“Tendo Jesus entrado no pátio do templo, expulsou todos os que ali estavam comprando e vendendo; também tombou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos comerciantes de pombas. E repreendeu-os: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; vós, ao contrário, estais fazendo dela um covil de salteadores.”

(Mateus 21.12, 13)


Cristo nesta ocasião não pediu com delicadeza para que saíssem do templo. Ele se irou e foi firme para com os que estavam naquele local. Mas, Ele ainda assim não pecou, pois Sua ira não tinha por base Seus desejos pessoais ou interesses próprios. Cristo se irou porque o que estava acontecendo naquele local não glorificava o Pai. Toda ira que tenha por base a defesa da vontade de Deus não é pecaminosa, e para que a nossa ira seja santa como a de Deus, é necessário que estejamos livres da idolatria, que assim como o orgulho é um forte combustível para um coração irado, pois ao contrário da ira santa que é baseada na vontade do Pai, a ira pecaminosa tem um ídolo alimentando-a.


Ira pecaminosa Ira Santa

Quando não obtenho o que desejo Quando Deus não é glorificado

Eu sou o senhor da minha vida Cristo é o Senhor da minha vida

A minha vontade é transgredida A vontade de Deus é transgredida

Causa: desejo idólatra do meu coração Causa: Glória de Deus

Eu sou deus Deus é Deus


A mansidão é característica fundamental de um pacificador

Uma pessoa que é caracterizada pela ira pecaminosa é explosiva e frequentemente é controlada por seus desejos e vontades, de maneira que nunca está apta a escutar quem está à sua volta. Imagine que essa mesma pessoa precise repreender um irmão que se encontra em dificuldade com algum pecado. Agora, imagine a repreensão de uma pessoa irada: “Que iniciativa estúpida foi essa! Como você pode ter feito algo tão antibíblico? Eu nunca teria feito tal coisa! Você sempre faz as mesmas coisas, parece que não quer crescer!” Isso com certeza não irá restaurar o irmão e muito menos irá apaziguar a situação. Agir com mansidão promove a paz.


A mansidão traz paz eterna e salvação

“Mas os mansos herdarão a terra e se deleitarão na abundância de paz.”

(Salmo 37.11)


Mais claro do que isso impossível. Aquele que é manso como Cristo, desfruta de uma paz sem igual e de comunhão com Ele. É uma pessoa que convive bem com os que estão à sua volta, e alguém que não carrega o fardo de suas palavras tolas, pois ele pondera e lança palavras que edificam o corpo.


Quando lemos “herdarão a terra”, o versículo não faz menção à terra em que vivemos atualmente, mas sim a “novos céus e nova terra”. Ao contrário do exemplo que vemos na história de Moisés, onde Deus não permitiu que ele entrasse na Terra Prometida por sua atitude de ira pecaminosa, o contraste aqui é de que alguém manso, pela sua mansidão, está apto ao Reino dos Céus.


Que possamos crescer cada vez mais em uma vida de mansidão para a honra e glória do nosso Deus, que é manso e justo. Amém!


Editorial de Rafael Ceron