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Motivações do Coração

Ajustando as motivações: o caminho para a mudança permanente


O que caracteriza um herói em fábulas e contos? O que faz com que gostemos ou não de algum personagem? Por que chamamos alguns de bons, e outros de maus? Alguns podem dizer: “Um herói deve ter coragem, força, bravura, inteligência, e deve sempre fazer a coisa certa”. Mas se pararmos para pensar em alguns filmes e livros em que a figura de um herói é bem clara, nem sempre esse é o padrão que encontramos. Veja, por exemplo, a estória de Robin Hood. Nesse conto, o personagem principal roubava das pessoas mais ricas do reino — certamente algo ruim, sem margem para discussão. Mas o público de certa maneira perdoa essa atitude por causa das suas motivações: ele roubava dos ricos (que na estória se beneficiavam de impostos abusivos) para dar aos pobres — uma atitude altruísta. Robin Hood era um criminoso, mas o leitor normalmente considera seus motivos nobres. Por outro lado, seu adversário (o xerife de Nottingham) é odiado não somente por impor impostos (o que estava dentro da lei), mas por fazer isso de maneira excessiva, fazendo o povo entrar na miséria. Ele é sempre retratado como um personagem egoísta.


Esse pequeno exemplo deixa claro que simplesmente olhar para atitudes não é suficiente para entendermos as pessoas ao nosso redor, ou mesmo a nós mesmos. Precisamos olhar além, para os corações nos quais as atitudes são originadas, que revelam o porquê de fazermos isso ou aquilo. E é exatamente por isso que a Bíblia fala tão extensivamente sobre esse assunto. Nesse editorial vamos entender um pouco como nossa falha em seguir a Deus está relacionada com nossas motivações, e como uma mudança duradoura só pode ser atingida ao considerarmos os desejos do nosso coração. Mais especificamente, vamos ver que motivações do nosso coração mostram onde está a nossa adoração, e que mudança bíblica está sempre ligada ao conhecimento de Deus.


Um problema de adoração


Algumas características do relacionamento entre Deus e Seu povo (seja Israel no Antigo Testamento, ou a igreja no Novo) seguem padrões. Um deles é o fato de que a iniciativa do relacionamento sempre parte de Deus, exigindo exclusividade na adoração, seja no chamado de Abrão em Gênesis 12, na libertação do povo e entrega da Lei em Êxodo 20 ou mesmo o discurso de Jesus se revelando o único caminho para o Pai em João 10. Outro padrão é que tal relacionamento sempre pressupõe uma maneira de seguir a vida diferente da dinâmica dos povos ao redor (Deuteronômio 12.29–31, Romanos 12.2). Mas a história nos mostra que, apesar de ter sido o objeto da revelação divina, Israel não cumpriu aquilo que foi ordenado. Vez após vez, diante das falhas do Seu povo, Deus usa Seus profetas para chamá-lo ao arrependimento, normalmente com uma mensagem similar àquela escrita pelo profeta Joel:


“Agora, porém, declara o Senhor, voltem-se para mim de todo o coração,

com jejum, lamento e pranto. Rasguem o coração e não as vestes.

Voltem-se para o Senhor, o seu Deus, pois ele é misericordioso e compassivo,

muito paciente e cheio de amor; arrepende-se e não envia a desgraça."

(Joel 2.12 e 13)


A mensagem do profeta, como muitas na Escritura (Isaías 29.13 e Jeremias 17.5–8) mostra que a preocupação de Deus não é somente com ações externas, mas com o coração. Esse termo aparece constantemente nas nossas leituras bíblicas e normalmente está conectado com o nosso ser interior, com as nossas vontades. Mesmo que Deus tenha dado ordenanças, Seu plano nunca foi que elas fossem seguidas de maneira mecânica, mas que cada uma delas fosse o resultado de gratidão por aquilo que Deus havia feito na vida do povo, e em antecipação daquilo que Ele ainda faria. O foco era, desde o início, o coração.


A motivação central do coração é revelada pelos nossos desejos. Queremos paz, alegria, estabilidade, amor, controle... Mesmo que esses desejos não sejam ruins em si, eles se tornam um problema quando são colocados acima de Deus e das Suas ordenanças. Nossos desejos “engordam”, e os buscamos de maneira independente de Deus. Coisas se tornam objeto da nossa adoração e nosso propósito de vida. Sentimos como se precisássemos delas para sobreviver! Somos como o povo de Israel no deserto que, enquanto era sustentado milagrosamente por Deus, murmurava com saudades dos vegetais do Egito (Números 11.5).


Um coração que adora somente a Deus e coloca nEle toda a sua confiança tem motivações transformadas, que levam a ações e palavras alinhadas com a Palavra de Deus. Um coração que adora qualquer outra coisa levará inevitavelmente a motivações erradas, que também irão impactar nossas palavras e ações. Isso se torna aparente quando não obtemos aquilo que desejamos: a maneira que reagimos (por meio de palavras, ações ou mesmo pensamentos) serve de termômetro para o nosso coração.


A chave para a mudança


Deus é gracioso em nos dar circunstâncias difíceis para nos mostrar onde está a nossa confiança e quais são os nossos ídolos. Mas o problema com a idolatria é que ela é uma questão do coração; ela nunca é resolvida literalmente jogando uma estátua pela janela. O que devemos fazer quando identificamos desejos desordenados no nosso coração, então?


“Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês:

imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. [...]

Não mintam uns aos outros, visto que vocês já se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo, o qual está sendo renovado em conhecimento,

à imagem do seu Criador.”

(Colossenses 3.5,9 e 10)


Paulo, mostrando as características de uma vida redimida aos colossenses, deixa claro que nossa busca envolve abandonar a nossa natureza terrena, mas ele não para por aí. Mais do que isso, devemos nos revestir do novo homem, à imagem do Criador. Nosso primeiro passo deve sempre ser nos voltar a Deus em arrependimento (abandonar), e então buscar o conhecimento de quem Deus é, e a obra que realiza em nós. Mudança real só ocorre quando focamos em conhecer Aquele que realmente merece nossa adoração. Veja 2 Pedro:


“Seu divino poder nos deu tudo de que necessitamos para a vida e para a piedade,

por meio do pleno conhecimento daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude.”

(2 Pedro 1.3)


Muitos de nós assumem que uma mudança começa com um plano e uma série de passos, como uma receita de bolo. Mas na realidade, mudança no nível do coração é alcançada ao conhecermos uma pessoa, o Deus Trino! E o verdadeiro conhecimento de Deus não pode ser obtido sem o Evangelho, onde Deus escolheu Se revelar de maneira mais clara na vida, morte e ressurreição de Jesus. Em Jesus, o Pai mostrou de maneira última a Sua bondade, Seu poder e Sua glória (Hebreus 1.1–4)! Em Jesus encontramos perdão completo quando ainda éramos pecadores (Romanos 5.8)! Em Jesus encontramos o poder para mudar por meio do seu Espírito (Romanos 8.11)!


Frustração, ansiedade, ira, amargura, tristeza, medo... Todos esses sentimentos podem estar ligados a diversas razões (ou motivações), mas todos eles têm origem no coração. O coração pode ser enganoso mais do que todas as coisas, mas temos esperança, pois Deus conhece nosso coração (Jeremias 17.9 e 10)! Precisamos nos submeter a Deus e orar para que nosso coração seja desvendado, então começaremos a enxergar mais claramente. E mesmo quando o coração se torna difícil de entender, mais importante que conhecermos nossas motivações é conhecermos a Deus — e Ele é sempre muito generoso em Se revelar.


Editorial de Petrônio Nogueira

Referência bibliográfica:

“Motives: Why Do I Do the Things I Do?” de Ed Welch, publicado em The Journal of Biblical Counseling, Fall 2003.

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