Vote com fé

Atualizado: 27 de Out de 2018

Estamos às vésperas das eleições. O Brasil está dividido em extremos. Tem muita gente indecisa e o cenário é de instabilidade. E agora? Vote com fé! É importante lembrarmos que tudo o que fazemos deve ser para a glória de Deus, inclusive votar (1 Coríntios 10.31). Naturalmente, a pergunta é: “como iremos votar com fé?”


“Votar com fé” não é o mesmo que votar com expectativa de mudança do quadro nacional, muito menos no desejo de ver seu candidato eleito. “Votar com fé” é votar informado por sua fé. O que cremos influencia como vivemos. Somos chamados a conhecer a “verdade segundo a piedade” (Tito 1.1). Como construímos valores é importante tanto quanto a maneira que saímos em sua defesa. Nessas eleições, temos visto excessos cometidos em vários campos do debate político. Porém, usar os excessos como um “escudo” para não discutirmos valores urgentes em pauta não irá nos levar a lugar algum.


O Estado é laico? Você não!

Entende-se por laicidade do Estado brasileiro a defesa do princípio da imparcialidade em assuntos religiosos, sem apoio nem discriminação a nenhuma religião. A conclusão de que o Brasil é laico vem do entendimento de dispositivos constitucionais. Por exemplo, o artigo 5º de nossa Constituição aponta para a liberdade individual de crença e prática religiosas:


Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

[...]

 VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.[1]


Popularmente, a laicidade do Estado vem sendo tratada como uma barreira obrigatória entre religião e política. Porém, essa é uma implicação desnecessária para eleitores que querem pensar as implicações de sua fé no exercício de sua cidadania terrena. Pensar seu voto com fé é um exercício de consciência garantido por nossa Constituição. Votar com fé é consequência inevitável de sermos humanos. Votar para a glória de Deus é um objetivo de todo cristão comprometido em seguir Jesus. O que cremos deve dar forma a tudo o que fazemos, inclusive votar.


Em seu livro How the nations range, Jonathan Leeman aponta de forma precisa que: “Nenhum cidadão ou funcionário público é religiosamente indiferente ou neutro.”[2] Todos nós vivemos diante de Deus (Atos 17.28). Você precisa e irá pensar política a partir de uma visão religiosa, ciente disso ou não; queira isso ou não; e certo sobre isso ou não. Ainda que o Estado clame para si uma suposta laicidade, você não é laico.


Crenças, valores e práticas

Crenças estabelecem valores. Por sua vez, valores determinam práticas. Ideologias políticas criam valores políticos que são transformados em práticas. Por isso, precisamos avaliar ideologias políticas com nossa teologia. Precisamos refletir nossa escala de valores à luz do Evangelho. Precisamos alinhar nossas práticas conforme a Palavra de Deus. Então, concluir que discutir política é igual a escolha de seu time de futebol é ser simplista demais. As ideologias que movem os debates não estão imunes a visões de mundo que moldaram eventos trágicos da história da humanidade.


Cidadãos de um outro Reino, mas votando nesse mundo

Jesus afirmou que Seu Reino não é deste mundo (João 18.36). Os seguidores de Jesus têm uma pátria diferente (Filipenses 3.20). Porém, ainda não estamos lá. Com um Rei de outro Reino, somos peregrinos em terras estranhas. Servimos no mundo, mas temos Jesus como Mestre (1 Pedro 2.11, 12). A tentativa de invertermos os papéis é desastrosa. Não podemos servir Jesus tendo o mundo como mestre.


Servimos pessoas com nosso voto a partir dos valores do Rei de outro mundo. O bom exercício de nosso voto de acordo com os valores do Rei Jesus é uma forma de amarmos as pessoas. A boa convivência no mundo criado por Deus é possível de acordo com as ordens do próprio Deus. Iremos votar bem nesse mundo mantendo os olhos fixos no Rei Jesus. Ainda que o Reino de Deus não seja deste mundo, Seus valores testemunham de um Rei melhor e maior que qualquer opção eleitoral.


Aplicando a crença à prática do voto

Votar não é uma tarefa fácil. Sem dúvida, envolve (mas não exclusivamente) uma questão de consciência individual. E lógico, indivíduos bem-intencionados chegarão a conclusões diferentes. Mas o caminho da maturidade envolve o exercício da aplicação da Palavra de Deus, a construção de uma visão de mundo coerente com o caráter do Criador e a serenidade de uma decisão bem informada.


Homens bons se tornam parte de algo ruim por não acreditarem em crítica, resistência e oposição. Suavizar a seriedade dos efeitos nocivos dos fundamentos de ideologias irá cauterizar consciências. Consciências cauterizadas se tornam inertes e apáticas a perigos reais. Vez após vez, diante de ameaças teológicas, o apóstolo Paulo alertou cristãos sobre sistemas competitivos com o Evangelho. Eram ideias. Ideias sutis que enganavam até os mais experientes. E esse é o problema do engano: ele engana. Quem está enganado, não o sabe. A reflexão e a autocrítica se tornam aliadas importantes no exercício político atual. O diálogo constante (i.e., exortações mútuas) irá diminuir o risco de errarmos.


Hoje, muitos cristãos entendem que essas eleições giram ao redor de valores intrinsecamente ligados à identidade da fé cristã. A urgência e a paixão com que as eleições estão sendo discutidas giram ao redor de implicações diretas do Evangelho, por exemplo: a dignidade da vida (ABORTO) e a unidade familiar (IDEOLOGIA DE GÊNERO). Poderíamos falar sobre outras coisas, mas essas duas questões são importantes (e por que não determinantes?) para ORIENTAR a maneira de pensarmos a formação de políticas específicas fundamentais e, consequentemente, a escolha de representantes políticos. Não se engane, os pilares morais de uma civilização precedem sua performance econômica: Sodoma e Gomorra eram a “grama mais verde” que seduziu Ló em sua escolha de moradia (Gênesis 13.10-13; cf. 19.1-29).


A Palavra de Deus não fala só de amar a Deus e amar pessoas. Ela também “corrige e repreende” (2 Timóteo 3.16). Erra quem pensa que o aborto deva se tornar política pública e erra quem pensa que a nova ideologia de gênero deva ser normatizada. Erram também os “que aprovam os que assim procedem” (Romanos 1.32). E como chegamos a esse julgamento? Por uma visão de mundo coerente com o caráter do Criador. Mundo que envolve política e suas reflexões.


Mas em todos os lados têm erros crassos!

Sim, inclusive erros mencionados na lista tenebrosa de Romanos 1.28-32. Verdade. Isso é que tem tornado essas eleições tão difíceis. Não existe “Messias” salvador da pátria entre os candidatos. Porém, precisamos distinguir entre pecados pessoais de candidatos e “politização” de práticas pecaminosas. Precisamos nos exercitar na árdua tarefa de priorizar pautas. Algumas irão tornar mais difícil que outras desfrutarmos da resposta de nossas orações em 1 Timóteo 2.1-2. Oramos de acordo com a Palavra de Deus, votemos de acordo com nossas orações: “...para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito!” (1 Timóteo 2.2).


Precisamos pensar as pautas que se harmonizam com o papel do Estado mencionado na Palavra de Deus. Quando atribuímos ao Estado tudo, ele irá fazer nada. Considere o papel do Estado em Romanos 13.1-7 e 1 Pedro 2.13, 14. O pouco que temos no Novo Testamento sobre o papel do Estado nos direciona para sua tarefa de garantir a segurança, discernindo o malfeitor do benfeitor. Não é responsabilidade do Estado transformar pessoas, mas sim do Evangelho. A responsabilidade de um Estado eficiente é mediar justiça para que vivamos vida tranquila e mansa. Onde estão os líderes que chamam o mal de mal e o bem de bem? Onde estão os líderes que discernem o certo do errado? (Provérbios 29.2, 4, 7, 12).


Nossa agenda política não é promover uma moralidade religiosa e superficial, mas apoiar práticas ligadas a valores construídos em crenças profundas. Esse é nosso dever como cristãos e nosso direito constitucional. Muito ainda poderia e deveria ser refletido sobre a formação das ideologias políticas. Devemos considerar suas ilusões e suas desilusões. Porém, a base da reflexão política que precisamos é a teologia. Não existe ideologia neutra. Vote com fé.


Espere com fé

Dia 7 de outubro de 2018 é o dia das eleições. Nesse dia, brasileiros e brasileiras irão às urnas para escolher seus candidatos. Todos nós, candidatos e eleitores, estaremos debaixo do Rei Soberano que tira e põe governos e governantes (Daniel 4.25). Seu Reino não é deste mundo, mas esse mundo está em Suas mãos. Nada escapa de Seu soberano, sábio e amoroso controle. Usando todas as coisas para o nosso bem, Deus não está apenas trocando nosso governo, mas nos moldando à imagem do Rei Jesus através de todo esse processo eleitoral (Romanos 8.28, 29). E tudo isso, certamente irá contribuir para avançar os propósitos do Rei no Universo. Vote com fé.


Editorial do Pr.Alexandre "Sacha" Mendes



[1] https://www.senado.leg.br/atividade/const/con1988/CON1988_05.10.1988/art_5_.asp


[2] Jonathan Leeman, How the nations range. (Nashville: Thomas Nelson, 2018), 23.

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