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A Feminilidade Em Provérbios

  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

O livro de Provérbios não trata a mulher como um tema secundário. Pelo contrário, a mulher ocupa um lugar de destaque em sua estrutura, sendo usada para personificar os dois caminhos fundamentais da existência humana: a sabedoria e a insensatez. Ao longo do livro de Provérbios, encontramos tanto a descrição prática da feminilidade sábia em ação quanto o retrato do seu coração. Salomão descreve o comportamento e caráter como inseparáveis: um depende do outro. Olhando para as descrições da mulher em Provérbios, conseguimos identificá-la em três movimentos distintos: a mulher criada, as distorções do pecado e a mulher restaurada. Cada um desses movimentos nos ajuda a entender através das lentes do livro de Provérbios os propósitos divinos para a mulher, as distorções do pecado em seu caráter e a vida da mulher restaurada pela sabedoria.

 

A Mulher Criada: O Projeto Original

 

Desde o início, Provérbios apresenta a mulher como um presente divino. A esposa não é fruto de um mero acaso social, mas uma bênção direta do Senhor: “Quem acha uma esposa acha o bem; recebeu uma bênção do Senhor” (18.22). Essa realidade coloca a feminilidade no terreno da gratidão e do reconhecimento de uma dádiva divina, não da casualidade.

 

Além disso, a sabedoria personificada em Provérbios 8 é apresentada no feminino. Ela esteve presente na Criação como arquiteta, ao lado do próprio Deus: “eu estava com ele e era o seu arquiteto. Dia após dia eu era a sua alegria” (8.30). Sem querer impor algo além ao texto bíblico, acredito que podemos dizer que a feminilidade, em seu projeto original, carrega a capacidade de espelhar atributos do caráter de Deus. A mulher que vive pela sabedoria se torna uma janela para quem Deus é, uma representante visível de muitos atributos divinos comunicáveis.

 

Provérbios 31 ilustra isso de maneira ainda mais clara. Cada ação da mulher descrita ali reflete um atributo divino. Ela provê antes da crise chegar, espelhando a providência de um Deus que sustenta a criação antes que ela peça (31.13, 18). Ela abre a mão ao pobre, refletindo a justiça e a misericórdia de um Deus que defende os vulneráveis (31.20). Ela fala com instrução fiel, unindo verdade e lealdade como Deus faz em sua Palavra (31.26). Ela é confiável todos os dias, expressando a fidelidade que é presente em toda a Escritura (31.10). E usa a sua força sem violência, exercendo poder para ordenar e proteger, não para dominar. Toda essa capacidade, porém, tem uma raiz: o temor ao Senhor (31.30). Sem o temor do Senhor, a mulher não reflete coisa alguma. Com o temor do Senhor, a feminilidade revela algo sobre Deus.

 

As Distorções Do Pecado: O Que A Queda Faz Com A Feminilidade

 

Se a sabedoria personificada representa a feminilidade em seu ápice, a chamada mulher estranha é o seu contraponto. Provérbios não usa essa figura para degradar as mulheres, mas para mostrar o que o pecado faz com a feminilidade. Quando a sabedoria é abandonada, o que deveria ser fonte de vida se torna fonte de desgaste, e quem mais sofre é quem está mais perto.

 

O texto identifica diferentes formas dessa distorção e seus efeitos sob quem está perto. A mulher estranha opera sem vínculo moral, seduzindo com palavras lisonjeiras que atraem pelo prazer imediato, não pelo bem duradouro (2.16; 7.5–27). A mulher briguenta causa sofrimento ao redor: “A goteira contínua num dia chuvoso e a esposa briguenta são semelhantes” (27.15). Quem deveria edificar traz desgaste; quem deveria proteger, corrói. Já a mulher adúltera descrita no livro de Provérbios representa um estágio avançado da Queda, pois não apenas age erroneamente, mas perdeu a capacidade de reconhecer o erro: “Come, limpa a boca e depois diz: Não fiz nada de errado!” (30.20). A insensibilidade moral é o fruto amadurecido da insensatez.


Provérbios descreve ainda uma outra figura: a mulher fraca espiritualmente, sem discernimento, vulnerável a falsos ensinos, guiada pelas emoções e incapaz de transformar em vida o que aprende. Ela tem informação, mas não é transformada. Em contraste com a mulher sábia, que governa o espírito com discernimento, essa mulher é governada pelas circunstâncias. O padrão em cada caso é o mesmo: a mulher insensata derruba a própria casa com as próprias mãos (14.1), enquanto a sábia a edifica.

 

A Mulher Restaurada: Vivendo Na Sabedoria

 

A redenção em Provérbios não é um conceito abstrato. É a aplicação prática do temor do Senhor que transforma o caráter e restaura a capacidade criativa da mulher. A mulher sábia não é apenas eficiente: ela é uma construtora, agente de criação e ordem. Seu primeiro campo de atuação é o lar, mas sua influência transborda para todos os espaços em que Deus a colocou (31.10–31).

 

A autoridade pedagógica da mãe é afirmada com força em Provérbios. O filho deve ouvir tanto a instrução do pai quanto o ensino da mãe (1.8). A mãe de Lemuel o instrui sobre justiça e liderança (31.1–9). A mulher sábia cuida do bem-estar dos filhos e conhece as Escrituras com profundidade suficiente para ser mentora intelectual deles, criando espaços onde a cosmovisão bíblica é discutida e aplicada a dilemas reais.

 

Essa mulher também demonstra discernimento prático e força interior, sem ser dominada pelas emoções (31.17). Sua força não vem das circunstâncias favoráveis, mas da convicção de que Deus é soberano sobre elas. Ela une a suavidade da feminilidade a uma firmeza espiritual para discernir o erro e sustentar a verdade. Suas palavras são instrumentos de edificação: a mulher sábia usa a língua para restaurar relacionamentos, não para alimentar conflitos (31.26).

 

O Caminho Da Restauração

 

Diante do relato da feminilidade em Provérbios, a Palavra de Deus faz o seu papel: ensino, repreensão, correção e educação na justiça (2 Timóteo 3.16). A Palavra de Deus não é para ser um peso que lhe direciona para uma culpa sem esperança. A Palavra de Deus expõe o pecado para apontar a esperança em Jesus. Assim, antes de perguntar “o que devo fazer?”, a mulher sábia pergunta “quem é meu Senhor?”. Seu fundamento é o conhecimento de Deus, não a performance de boas ações meramente externas. A partir daí, ela busca a formação contínua na Palavra de Deus, saturando o coração com o que é verdadeiro para discernir o que é bom. E então a sabedoria a liberta para exercer influência real nas esferas onde Deus a colocou.

 

Assim, as perguntas que ecoam em todo o livro de Provérbios são estas: esta mulher está edificando ou demolindo? Ela faz o que faz a partir de quê? As respostas não começam pelo comportamento, mas pelo coração. Não se pode imitar o comportamento da mulher sábia sem ter o coração da mulher sábia. Quem tenta isso termina no cansaço ou na hipocrisia.

 

Provérbios convida a algo diferente: uma feminilidade enraizada no temor ao Senhor, orientada pela Palavra de Deus, e bem-aventurada em tudo o que constrói.

 

Editorial do Pr. Alexandre “Sacha” Mendes


 
 
 

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