A Realidade da Morte

''O sábio pensa na morte com frequência, enquanto o tolo só pensa em se divertir.''

(Eclesiastes 7.4 – NVT)


A morte é uma realidade. Ela está nas casas onde há luto. Cedo ou tarde ela estará em nossas casas. Já pensou que em algumas (poucas) décadas todos que tiverem lido este editorial neste ano, 2022, não estarão mais por aqui? Em alguns anos, seu nome será pronunciado uma última vez sobre esta terra (talvez por causa de algum bisneto curioso fazendo perguntas sobre os antepassados). Já pensou nisso? Somos pó e ao pó voltaremos. A ideia aqui não é trazer pensamentos macabros, mas uma vez que a Bíblia tem muito a nos dizer sobre a morte, nós temos muito a meditar sobre ela.


Como Deus aborda a morte?


A vida nem sempre foi cercada de morte. Deus nos criou para uma vida abundante com Ele. Assim era no jardim da Criação. Conhecemos o relato bíblico. O Criador tinha um relacionamento direto com Adão e com Eva, e eles não conheciam a dor da morte, pois estavam ligados perfeitamente ao Doador da vida. Não havia separação entre Deus e o homem. A morte veio como consequência da rebeldia contra Deus:


''E o Senhor Deus ordenou ao homem: Coma livremente de qualquer árvore do jardim,

mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal,

porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá."

(Gênesis 2.16, 17 – ênfase do autor)


''Quando a mulher viu que a árvore parecia agradável ao paladar, era atraente aos olhos e, além disso, desejável para dela se obter discernimento, tomou do seu fruto,

comeu-o e o deu a seu marido, que comeu também.''

(Gênesis 3.6)


Ao rejeitarem a ordem de Deus, rejeitaram o próprio Deus, e o pecado causou a separação entre o Santo e a humanidade. Por meio de Adão, sendo nosso representante, o pecado entrou no mundo e com ele a morte. E uma vez que todos pecaram, a morte está sobre todos nós (Romanos 5.12). Contudo, da perspectiva divina, a morte também é um ato de misericórdia. Uma vez nesta condição de miserável pecador, o Senhor Deus decidiu abreviar o tempo dos seres humanos sobre a terra.


''Então disse o Senhor Deus: Agora o homem se tornou como um de nós,

conhecendo o bem e o mal. Não se deve, pois, permitir que ele também tome do fruto

da árvore da vida e o coma, e viva para sempre."

(Gênesis 3.22)


Imagine viver dez mil anos em um mundo caído cheio de sofrimento e maldade. Seriam dez mil anos de pecado! Aqui, muitas vezes os justos sofrem e os perversos prosperam. Muitas vezes não veremos a justiça acontecer. Muitas vezes seremos injustos. O Senhor Deus nos poupou de viver assim por tempo demais. Como considerou Salomão em Eclesiastes 4.2: ''Por isso considerei os mortos, mais felizes do que os vivos, pois estes ainda têm que viver!''. A vida em um mundo separado de Deus sempre será sofrida, e a morte veio também como uma forma de abreviar esse tempo.


Como devemos olhar para a morte?


Imagine uma pessoa saltando de um avião, e no meio da queda livre, descobre que seu paraquedas está irremediavelmente furado. Diante dessa situação ela considera duas formas possíveis de lidar com a sua circunstância:


1) Negar que a gravidade existe e assumir que nunca vai chegar ao solo. Ela tenta até

curtir a viagem, vivendo uma ilusão, ou


2) Encarar a realidade da morte certa e passar os seus últimos segundos em agonia e desespero.


O que é melhor? Ser escravo de uma ilusão ou do medo? Graças a Deus, essas não são nossas únicas opções.


É tolice viver sem levar em conta que a vida é como a ''neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa'' (Tiago 4.14). Ainda assim, mesmo quando sentirmos o nosso corpo definhando, não precisamos ser escravos do medo da morte. A Palavra de Deus nos ensina a verdade:


''Portanto, visto que os filhos são pessoas de carne e sangue,

ele também participou dessa condição humana, para que, por sua morte,

derrotasse aquele que tem o poder da morte, isto é, o diabo,

e libertasse aqueles que durante toda a vida estiveram escravizados pelo medo da morte.''

(Hebreus 2.14, 15)


O Senhor Jesus, sendo Deus, tomou forma humana para experimentar a morte. Só essa verdade já é grande fonte de consolo. Nosso Senhor experimentou todos os tipos de tentações e provações humanas (Hebreus 2.17, 18), e tem compaixão perfeita por nós! A morte não deixará de ser algo doloroso, mas temos profunda convicção que o nosso Pastor já foi à nossa frente e nunca largará a nossa mão. Somos peregrinos nesta terra confiando que Deus é o nosso Deus para todo sempre, nos guiará até o dia da nossa morte (Salmo 48.14) e nos redimirá da sepultura (Salmo 49.15).


Como a realidade da morte deve mudar nossa vida aqui na terra?


A realidade da morte põe à prova as nossas convicções. Nos ajuda a sondar ao que damos valor e pelo o que vivemos. Por isso, as seguintes considerações podem nos ajudar a vivermos de maneira coerente com as revelações bíblicas:

1) A vida não é um fim em si mesma


Pense no relato da ressurreição de Lázaro (João 11). Jesus ficou profundamente comovido com a morte de Seu amigo Lázaro (João 11.33,35,38). Apesar disso, Jesus não ressuscitou Lázaro por ser Seu amigo, Ele o ressuscitou para que os Seus seguidores cressem que Deus O enviou (João 11.15,42). Ou seja, a morte e a ressurreição de Lázaro faziam parte de algo muito maior que o próprio Lázaro. Faziam parte do plano de Deus para revelar Cristo Jesus. A nossa experiência humana de vida e morte servem para os propósitos de Deus de glorificar o Seu nome. Nós não existimos para nós mesmos, mas fomos criados para usufruir eternamente de Deus, cumprindo os Seus propósitos. A primeira pergunta do catecismo de Westminster¹ ensina: ''Qual é o fim principal do homem? Resposta: Glorificar a Deus e gozá-lO para sempre.''. Portanto, o medo da morte perde sua força quando nutrimos a mente com a perspectiva da eternidade. Deus usa todos os eventos da nossa existência, inclusive a morte, para nos aproximar dEle.


2) Nos preparamos para a morte tendo nosso tesouro no lugar certo


''Tudo que não é eterno, é eternamente inútil.'' (C. S. Lewis)². Não devemos gastar todas as nossas energias e recursos tentando tornar essa vida segura. O Senhor nos alertou contra os perigos de gastar a vida em busca do que o tempo desgasta, o ladrão rouba e a traça consome (Lucas 12.33). O rico da parábola (Lucas 12.13–21) era insensato não pelo fato de ser rico, mas porque não levou Deus em consideração, nem buscou aquilo que Deus diz ser de valor. O Reino de Deus é o tesouro a ser buscado (Lucas 12.31). Buscamos em primeiro lugar o Reino de Deus quando nossas proridades estão alinhadas com os Seus mandamentos. Diante disso, de que formas buscamos o Seu Reino em primeiro lugar? Fazemos isso em nossa própria casa, dando a vida pela esposa (Efésios 5.25), respeitando ao marido (Efésios 5.33), ensinando os filhos a temer O Senhor (Provérbios 1.7; Efésios 6.4) e obedecendo aos pais (Efésios 6.1, 2). Fazemos isso também cumprindo o mandamento de Deus de fazer discípulos em toda terra (Mateus 28.19).


Portando, se quisermos nos preparar para a morte, a forma bíblica é gastar a vida acumulando tesouros na eternidade!


Editorial de Matheus Carneiro

¹ https://www.seminariosimonton.com.br/documentos/breve-catecismo-de-westminster.pdf


² Lewis, C. S. Os quatro amores / C. S. Lewis; traduzido por Estevan Kirschner. 1 a ed. — Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017. Tradução de: The Four Loves. https://www.eecarvalhosenne.com.br/wp-content/uploads/2020/10/Os-Quatro-Amores-C.-S.-Lewis.pdf