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Aprendendo a Lamentar - Parte I

Nós sofremos. Todos nós. Quando nascemos, nossa primeira resposta a esse “novo mundo” é o choro. O sofrimento faz parte da nossa vida — mais do que gostaríamos que fizesse. Mas você já reparou como temos dificuldade para falar sobre o sofrimento?


Algumas pessoas simplesmente tentam ignorá-lo. Não falam sobre ele, porque acham que isso as faz mais fortes. Ficam desconfortáveis em dizer a Deus que as coisas estão difíceis, como se isso demonstrasse falta de confiança nEle. Sentem que precisam lidar com a situação sozinhas e, em seu orgulho, não se voltam para Deus com sua dor.


Outras só falam sobre as dificuldades que têm enfrentado. Tudo gira em torno da dor, e não há esperança para sua situação. Questiona-se o caráter de Deus, por achar que Ele não está cuidando da situação e também não está no controle.


Embora sejam as reações mais comuns, as duas abordagens estão erradas. Ambas demonstram corações orgulhosos, que não confiam no Senhor e que buscam resolver os problemas sozinhos. A realidade que essa situação nos mostra é que não sabemos como orar quando estamos sobrecarregados de tristeza ou ansiedade.


No entanto, Deus nos deixou lições preciosas — principalmente nos Salmos — sobre como podemos e devemos nos colocar diante dEle quando lidamos com o sofrimento.¹ O lamento, como a Bíblia nos mostra, traz tanto a realidade da dor quanto o reconhecimento do caráter de Deus. As duas coisas não se excluem. Pelo contrário, lamento é a linguagem da dor para os que vivem em um mundo caído, mas permanecem confiantes na soberania amorosa de Deus. Como diz Mark Vroegop: “lamento é uma oração que as pessoas oferecem a um Deus soberano quando a vida não se encaixa no que elas sabem ser verdade sobre ele e sobre a maneira como ele criou as coisas para ser... lamento é uma oração em meio a dor que conduz a confiança”.²


Portanto, estudando alguns Salmos, veremos quatro características que devem modelar nosso lamento de uma forma que sejamos sinceros diante de Deus, e ao mesmo tempo reconheçamos Seu caráter e glória.


Vire-se para Deus em oração


Fazer uma oração de lamento é uma das maiores demonstrações de fé que podemos dar. Normalmente, quando alguma dificuldade nos alcança, é quase automático orarmos para que Deus aja. No entanto, também é quase automático desistirmos de orar quando a resposta de Deus é um não, e quando o sofrimento permanece. Nós não gostamos de ficar pensando na situação, remoendo aquilo, pensando sobre aquilo.


“No dia da minha angústia, procuro o Senhor;

erguem-se as minhas mãos durante a noite e não se cansam;

a minha alma não encontra consolo.

Lembro-me de Deus e começo a gemer; medito, e o meu espírito desfalece.

Não me deixas pregar os olhos; tão perturbado estou, que nem posso falar.”

(Salmo 77.2–4)


Quando o salmista se lembra de Deus, ele geme e seu espírito desfalece. Ele fica perturbado, e não consegue sequer falar. Ainda assim, o salmista continua indo a Deus, nos mostrando que precisamos nos voltar para Deus e falar com Ele sobre nossas dores, ao invés de permitir que nossas dores se tornem um buraco sem fundo.


Inclusive, o inimigo usa exatamente isso para nos afastar de Deus e minar nossa esperança. Satanás vai nos dizer que algumas coisas não valem a pena colocar diante de Deus, porque Ele não se importa, porque Ele não é capaz de fazer nada, porque Ele não é realmente Deus. Mas a realidade é que Deus se importa. Ele pede que coloquemos diante dEle TODAS as nossas ansiedades, porque Ele tem cuidado de nós (1 Pedro 5.7). Ele nos diz para colocarmos TODOS os nossos pedidos diante dEle (Filipenses 4.6 e 7). E Ele é capaz de fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos, para a Sua glória (Efésios 3.20 e 21).


Traga suas perguntas


Outro aspecto essencial ao lamento é colocar diante de Deus nossas perguntas e queixas. É importante entender que queixas aqui não são simplesmente reclamações sem sentido e baseadas em preferências, mas queixas reais que são fruto de sofrimentos e dificuldades reais.


Lamentar é ser “brutalmente” honesto com Deus sobre o que estamos sentindo e experimentando. É reconhecer que há algo de errado com o que estamos vivendo, que Deus não nos criou para vivermos determinadas situações, que o mundo caído é, em vários aspectos, terrível e difícil. É verbalizar a tensão que há em saber que Deus é bom, enquanto passamos por dificuldades, ou em saber que Ele está conosco, mesmo quando não sentimos dessa forma.


“Por que, SENHOR, te conservas longe? Por que te escondes nas horas de angústia?”

(Salmo 10.1)


“Até quando, SENHOR, te esquecerás de mim? Será para sempre?

Até quando esconderás de mim o teu rosto?

Até quando estarei relutando em minha alma, com tristeza no coração cada dia?

Até quando o meu inimigo se exaltará sobre mim?”

(Salmo 13.1 e 2)


“Será que o Senhor nos rejeitará para sempre? Acaso, não voltará a ser propício?

Cessou perpetuamente a sua graça? Caducou a sua promessa para todas as gerações?

Será que Deus se esqueceu de ser bondoso?

Ou será que encerrou as suas misericórdias na sua ira?”

(Salmo 77.7–9)


A Bíblia nos mostra, então, que podemos chegar diante de Deus abrindo o nosso coração, reconhecendo que temos experimentado sofrimento, e que muitas vezes temos dificuldade em perceber Sua presença amorosa e cuidadosa. Inclusive, isso não é surpresa para Ele. Deus conhece nosso coração e nossos pensamentos (Salmo 139.1–4), e Ele se agrada quando somos sinceros (Provérbios 3.32; 11.20).


Ao mesmo tempo, quando olhamos para o Salmo 77, por exemplo, será que o salmista realmente crê que Deus deixou de ser bom? Será que ele pensa que Deus não cumprirá mais Suas promessas? Certamente não! A continuação do Salmo nos mostra isso. O ponto aqui é que há promessas de Deus que sabemos ser verdade, mas que não parecem verdade em determinados momentos. O que fazemos com isso? Desistimos? Não! Conversamos com Deus sobre isso, porque as promessas são dEle, e somente Ele é capaz de renovar nossa força e esperança.


No próximo editorial, olharemos para mais duas características do lamento bíblico. A vida aqui, nesse mundo caído, é difícil. Mas Deus não nos deixa sem respostas e ferramentas para perseverarmos fielmente enquanto aguardamos nosso eterno lar.


Editorial de Gustavo Santos

¹ Cerca de um terço dos Salmos são de lamento.

² Esse editorial é baseado no livro de Mark Vroegop, “Nuvens Escuras, Profunda Misericórdia: Descobrindo a Graça do Lamento” (disponível apenas em inglês, com o título “Dark Clouds, Deep Mercy: Discovering the Grace of Lament”).





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