Questões Cruciais: Deus Controla Tudo Mesmo?

Estamos iniciando uma nova série de editoriais abordando algumas Questões Cruciais. Ao interagirmos com pessoas, ou até mesmo em situações do nosso dia a dia, perguntas surgem, tais como: Será que Deus controla tudo mesmo? Como saber se sou mesmo salvo? A oração muda as coisas? As respostas podem não ser simples, mas são cruciais para nos manter firmes naquilo que a Palavra de Deus nos diz.


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Deus controla tudo mesmo? Se fosse para responder de maneira rápida e objetiva, responderia: “Sim! Deus criou tudo e governa sobre todas as coisas”. Entretanto, é uma pergunta que exige uma resposta mais elaborada, doutra maneira teríamos inúmeros questionamentos.


Para compreendermos a complexidade deste tema, precisamos olhar para dois cenários. No primeiro, temos circunstâncias que aparentemente são boas, e no segundo, circunstâncias aparentemente ruins. No primeiro cenário, não encontramos dificuldades em enxergar o Deus criador que está no controle de todas as coisas. Porém, essa convicção é posta à prova quando nos deparamos com momentos desafiadores e que nos parecem maus.


Quando guerras, pandemias, injustiças, governos corruptos ou enfermidades nos assolam, parece impossível compreender que Deus está, de fato, no controle e que Ele é bondoso, justo e soberano. Afinal, como coisas ruins podem vir dEle e estar sob Seu controle? Entendo que esta seja uma dificuldade real, mas é importante pontuarmos que ela existe pelo conhecimento superficial de Seu caráter e de como Ele governa o universo e tudo o que nele há.


Por isso, meu objetivo é trazer alguns pontos que irão nos auxiliar na compreensão de como Deus está governando todas as coisas, mesmo em situações que nos parecem fora de controle. Ao mesmo tempo, devemos reconhecer que este é um tema bastante difícil, que precisa ser abordado com humildade, pois não somos capazes de entender todas as coisas. Há coisas que o próprio Deus deixa em oculto e que não nos foram reveladas em suas Escrituras.


“As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, nosso Deus,

porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei.”

(Deuteronômio 29.29)


Deus é o criador e provedor


Essa é uma das principais afirmações de toda a Bíblia. A Bíblia não deixa dúvidas de que Deus criou todas as coisas (Gênesis 1–2). Contudo, Ele não “apenas” criou todas as coisas, mas as sustenta em Sua providência (Hebreus 1.3). Uma boa definição sobre a providência divina é a do Pr. Franklin Ferreira: “Providência é o poder divino sobre a criação, pelo qual o Criador preserva as Suas criaturas, opera em tudo que se passa no mundo e dirige todas as coisas para o seu determinado fim”. Aqui, temos a ponte para nosso segundo ponto.


Deus governa tudo, pois Ele é soberano


“Porque dEle, e por Ele, e para Ele, são todas as coisas;

glória, pois, a Ele eternamente. Amém.”

(Romanos 11.36)


Nesse ponto, dúvidas e perguntas surgem. Como relacionar a soberania e o controle de Deus com as coisas ruins que experimentamos em nosso mundo?


Primeiramente, gostaria de reafirmar que Deus é soberano sobre todas as coisas (Salmo 103.19), inclusive sobre o mal. E meu argumento inicial é simples: Ele tem o poder para controlar todas as coisas, pois se existisse algo fora de Seu controle, Ele não seria o Todo-Poderoso. Consequentemente, não seria Deus. Mas isso significa que Ele ordena o mal? De maneira nenhuma! Ele não pode pecar pois nEle não há mal (1 João 1.5).


Em Gênesis 1, quando Deus cria o homem, Ele o cria conforme à Sua imagem e semelhança (Gênesis 1.26), mas essa semelhança não nos torna incapazes de pecar, como Ele o é. Ao criar o homem, Deus lhe deu a capacidade de não pecar (posse non peccare) e a capacidade de pecar (posse peccare). Quando optou pelo pecado, o homem perdeu o posse non peccare.


Entretanto, as consequências da queda e a influência do pecado não caíram apenas sobre o homem, mas sim sobre todos os seres viventes e sobre a natureza (Romanos 8.22, 23). O pecado causou uma desordem geral, um estranhamento ou inimizade, que pode ser visto em três esferas: homem-natureza, homem-homem e homem-Deus. Isso explica os desastres naturais, ataques de animais ao homem e guerras entre nações. Ou seja, nós e toda a natureza vivemos sob a influência do pecado.


Mas o que essas coisas têm a ver com a soberania de Deus? Deus poderia ter permitido que o homem não pecasse (Gênesis 20.6). Entretanto, por motivos que desconhecemos, Ele não o fez, e isso fazia parte de Seu plano perfeito (1 Coríntios 13.12).


Este mal, que a nós parece sem propósito, também faz parte do controle e soberania de Deus. Isso quer dizer que o mal é realmente bom? Não! Mas, em última análise, Deus ordena soberana e providencialmente todas as coisas, inclusive situações ruins, para alcançar o Seu bom e perfeito propósito (Romanos 12.2).


Pode parecer complexo o motivo pelo qual Deus permite que o pecado aja de maneira tão agressiva em nosso mundo. Porém, o que deve nos confortar é que não temos o conhecimento de todas as coisas ainda, apenas Ele é o conhecedor e mantenedor de Seu plano eterno. Além disso, Ele nos garante que nada pode nos separar de Seu amor (Romanos 8.38, 39), que todas as coisas, independentemente se são momentaneamente más ou boas, cooperam para o bem daqueles que temem a Deus (Romanos 8.28–30), e que Ele nos dará a capacidade para passar por todas as aflições que possam nos ocorrer (Filipenses 4.13).


Deus é soberano, mas isso não tira a responsabilidade do homem


Entretanto, mesmo que Deus seja soberano e que esteja controlando todo o universo, a responsabilidade do pecado ainda é nossa. Não somente do pecado, mas das escolhas que fazemos em nosso dia a dia.


É realmente difícil compreender como Deus está no controle do mal, permite o mal, sabe que realizaremos o mal, decide optar por não interferir e ainda somos responsáveis pela realização do pecado. Entretanto, fomos nós que escolhemos pecar, em Adão, e isso é de responsabilidade nossa.


Uma outra análise a ser feita é sobre a nossa criação. Como fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, mesmo que distorcida pelo pecado, alguns aspectos permanecem, e um deles é a volição. Ainda somos capazes de decidir por A ou B, mesmo que nossas escolhas, hoje, sejam influenciadas pelo pecado. Por este motivo, não somos marionetes nas mãos de Deus. É um engano pensarmos que Deus, por ser soberano e controlar todas as coisas, ordena que pequemos. Isso seria contra Sua natureza (Tiago 1.13). Por isso, existe uma relação entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana:


  • Deus nos dá liberdade: Vários versículos nos mostram que devemos escolher entre uma coisa ou outra. (Deuteronômio 30.19, 20; Mateus 11.28; João 1.12; 3.16; 6.40; Atos 16.31; Filipenses 2.12; Hebreus 10.36). Em outros episódios vimos Deus ordenando, e o homem deliberadamente (através de um exercício de obediência e ação do Espírito Santo) obedecendo e escolhendo fazer. Vimos isso em Noé ao construir a arca (Gênesis 6), Abraão ao deixar a casa de seus pais (Gênesis 12), entre outras passagens.


  • Ele continua soberano: Deus governa e sustenta todas as coisas (Salmos 47.8; 60.6–8); Ele sempre está presente, apesar das pessoas O reconhecerem ou não (história de Faraó endurecendo o coração).


Em resumo, Deus governa o mundo, é soberano, mas nós exercemos nossa volição, impactados pelo pecado, e somos responsáveis por tudo o que fazemos (Eclesiastes 12.14; Romanos 14.12).


De fato, não conseguimos compreender completamente todas essas coisas. Como falamos no início, é um assunto que precisamos abordar humildemente, reconhecendo nossas limitações de compreensão. Mas mesmo não entendendo 100% como as coisas funcionam, devemos confiar em Deus, pois Ele tem o controle, está executando Seu plano perfeito, e nos ama.


Editorial de Rafael Ceron