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Relacionamentos & Igreja: Reconciliação, o Custo do Perdão

  • 19 de mar.
  • 4 min de leitura

Nem todo perdão se apresenta com a mesma docilidade. Algumas ofensas parecem mais fáceis de perdoar do que outras. Quando o café é derramado sobre o nosso livro favorito ou quando quem nos fere é alguém por quem não temos qualquer afeição, o desafio pode ser maior. Talvez a explicação resida no fato de que o perdão envolve um custo — um custo que cresce quanto maior é a gravidade da ofensa e quanto maior é a distância entre o ofendido e o ofensor.

 

O Preço Envolvido No Perdão

 

O perdão envolve o cancelamento de uma dívida, e toda dívida perdoada tem um custo: o preço da ofensa que foi cometida. Toda dívida perdoada precisa ser paga por alguém. Em sua carta a Filemom, o apóstolo Paulo intercede por Onésimo, um escravo pertencente a Filemom que havia fugido, e possivelmente, causado prejuízo a ele. Paulo, ao buscar a reconciliação, não ignora a dívida existente; ao contrário, dispõe-se a assumi-la, dizendo: “Se te fez algum dano ou te deve alguma coisa, põe na minha conta” (Filemom 1.18). Assim, Paulo se coloca no lugar daquele que paga o preço necessário para que a reconciliação aconteça. Essa história nos aponta para uma realidade ainda maior: a obra de Jesus Cristo na cruz. Cristo tomou para si nossa dívida diante de Deus e realizou o pagamento perfeito por meio do Seu sangue. Em razão disso, nossa dívida foi cancelada, deixamos a condição de escravos do pecado, somos reconciliados com o Pai e recebidos não mais como inimigos, mas como filhos e irmãos caríssimos em Cristo.

 

O Perdão Da Cruz e Perdão Para o Irmão

 

Embora perdoar envolva um custo, esse custo sempre será infinitamente menor do que aquele que Cristo pagou na cruz por nossos pecados. O Evangelho nos lembra que fomos perdoados de uma dívida que jamais poderíamos quitar. É justamente essa verdade que Jesus ensina em Mateus 18, na parábola do credor incompassivo: aquele que, tendo sido perdoado de uma dívida imensa, se recusa a perdoar uma dívida pequena, revela a perversidade do próprio coração. Por isso, quando nos recusamos a perdoar, somos vistos como servos maus, pois a ofensa muito maior que cometemos contra Deus já foi graciosamente perdoada. Assim, a falta de perdão para com o próximo não é apenas ingratidão diante da misericórdia recebida; é também um ato de desobediência ao próprio Deus, que nos chama a refletir em nossas relações a graça que primeiro nos foi concedida.

 

Perdão Não é a Mesma Coisa Que Esquecer

 

Cancelamento de uma dívida, entretanto, não é esquecimento. Se tentássemos, a partir de um experimento mental simples, apagar eventos da nossa vida de forma deliberada, impondo, por meio da nossa vontade, uma obrigação de esquecimento, facilmente nos veríamos diante de um impasse cognitivo, acabando também por reforçar ainda mais a memória. Seria como se eu te pedisse, leitor, para que não pense no que está lendo. É nesse mesmo impasse que nos colocamos quando associamos o perdão ao esquecimento, ancorando-nos em estratégias mentais não redimidas. Cancelamento, todavia, significa fazer uma promessa de não cobrar mais o ofensor por sua ofensa e de não trazê-la novamente à tona (Salmo 103.8–13).


A Distância Que Aumenta o Custo Do Perdão

 

O custo do perdão é maior quanto maior for a distância entre ofensor e ofendido. Muitas vezes, em nosso coração, colocamo-nos em uma posição mais elevada do que o outro. Quando isso acontece, a ofensa parece ainda mais grave e o perdão se torna mais difícil. Essa atitude nasce do orgulho, que nos leva a pensar que jamais agiríamos da mesma forma (Romanos 2.1). No entanto, um coração verdadeiramente humilde reconhece algo diferente: quão grande é a nossa própria pecaminosidade. Essa consciência se aprofunda quando contemplamos a santidade de Deus. À Sua luz, percebemos quão grande é a nossa própria culpa e passamos a nos enxergar como necessitados da mesma graça que desejamos negar ao outro. Além disso, devemos lembrar que a verdadeira distância não está entre nós e o nosso irmão, mas entre nós e Deus. Nossa ofensa contra Ele é imensamente maior, e ainda assim Ele nos perdoa em Cristo.

 

A Frequência Da Ofensa e o Perdão

 

Além do tamanho da ofensa e da distância entre ofensor e ofendido, outro fator que pode tornar o perdão especialmente difícil é a frequência com que somos ofendidos. Perdoar sete vezes já é difícil; perdoar setenta vezes sete parece, muitas vezes, impossível. No entanto, as Escrituras nos apresentam o caráter de Deus como um contraste direto com a dureza do nosso coração: suas misericórdias se renovam a cada manhã, e é por isso que não somos consumidos (Lamentações 3.22 e 23). Se o Senhor nos tratasse com a mesma medida que muitas vezes usamos para tratar os outros, quem poderia suportar? O fato de sermos diariamente poupados por Suas misericórdias deveria moldar também a nossa postura diante de nossos irmãos. Ainda assim, frequentemente fazemos o contrário: nossas misericórdias não se renovam nem mesmo de ano em ano, e guardamos mágoas por ofensas antigas. Assim, embora sejamos continuamente preservados pela paciência de Deus, agimos com o desejo de consumir os outros em nossa ira. O Evangelho, porém, nos lembra que quem vive da misericórdia renovada de Deus também é chamado a exercer misericórdia renovada para com o próximo.

 

Afinal, o Que Significa Perdoar?

 

O perdão, portanto, não significa ignorar a ofensa nem simplesmente esquecê-la. Perdoar envolve um custo. Ainda assim, quando olhamos para o Evangelho, somos lembrados de que a nossa própria dívida diante de Deus era infinitamente maior do que qualquer ofensa que possamos sofrer. Em Sua misericórdia, Cristo tomou sobre si essa dívida e a pagou na cruz, reconciliando-nos com o Pai (Colossenses 1.21–23). Tendo sido alcançados por tão grande graça, somos chamados a viver à luz dela, perdoando uns aos outros.

 

Editorial de Vitória Saraiva


 
 
 

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