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   Saúde Mental: Quando a Alma Adoece

  • há 3 dias
  • 5 min de leitura

Quando ainda era novo na fé, a minha melhor impressão, sempre que entrava na igreja, era a de que as pessoas pareciam estar sempre muito bem, alegres, dispostas, com sorrisos no rosto, aparentando viver as manhãs e noites de domingo de forma leve e descontraída. No entanto, à medida que minha frequência aumentava e eu passava a ter mais convivência e comunhão com os irmãos, comecei a perceber que não era bem assim. Por trás dos bate-papos animados, sorrisos e daquela euforia contagiante, havia pessoas sofrendo dores profundas e enfrentando os mais diversos tipos de dificuldades.

 

Embora essa realidade seja mais comum do que imaginamos, não somente nas igrejas, nem sempre é algo que se consegue detectar com facilidade, especialmente, quando envolve questões de cunho mental e emocional, porquanto existem dores que não sangram, há feridas invisíveis aos olhos, lágrimas que não escorrem no rosto, mas encharcam o coração, e até mesmo, pesos invisíveis que acabam curvando o espírito sem tocar os ombros. Muitas vezes, é a alma que adoece e o coração que sofre sob o fardo da própria vida.

 

Diante desse cenário, somos inevitavelmente conduzidos a algumas perguntas importantes e necessárias: de onde brota essa dor misteriosa da alma? Qual é, de fato, a raiz desse sentimento que insiste em fazer morada no coração? Seria consequência do pecado, ou, apenas, uma expressão da fraqueza humana ou, ainda, será que poderia estar relacionada com os mais diversos tipos de enfermidades que alcançam a mente e as emoções?

 

Por se tratar de um tema multidisciplinar, certamente há uma diversidade de respostas possíveis. No entanto, prefiro seguir um caminho mais simples e seguro: aquele que nos conduz ao mais profundo e completo referencial sobre o ser humano: a Palavra de Deus.

 

Ela não apenas revela quem somos, mas também expõe, com clareza e verdade, as fragilidades do nosso coração (Hebreus 4.12). Mostra nossas dores, medos e as angústias mais profundas, ao mesmo tempo em que aponta, de formal real e segura, o caminho da esperança e da restauração.

 

Nesse sentido, a própria Palavra de Deus nos ensina que o sofrimento interior não possui uma única causa, mas pode surgir de diferentes realidades. Ela apresenta homens fortes com almas abatidas; profetas ousados que enfrentaram momentos de profunda tristeza e servos fiéis que atravessaram períodos de dores agudas e de intensa angústia.

 

Isso dá suporte suficiente para voltarmos às perguntas acima e respondermos que:

 

  • Sim, a dor da alma pode ser fruto do pecado: o pecado está ligado a uma decisão consciente de desobedecer a Deus (Gênesis 3.1–6). A Bíblia o define como “errar o alvo” (Romanos 3.23), transgredir a Lei divina ou rebelar-se contra a Sua vontade (1 João 3.4). Quando cultivado de forma contínua e mantido em segredo, ele passa a moldar o coração, e aos poucos, vai se transformando em um perigoso estilo de vida. E esse processo silencioso pode criar um distúrbio capaz de gerar tensão, medo, inquietação, instabilidade espiritual, e sobretudo, um sentimento persistente e escravizador de culpa que, ao mesmo tempo que corrói a alma, faz da consciência um campo angustiante de batalha. Não foi assim que Davi descreveu sua própria experiência ao declarar que, enquanto calou seus pecados, envelheceram seus ossos e seu vigor secou como no calor do verão (Salmo 32.3 e 4)?


    O exemplo do Rei Davi nos mostra que o pecado não tratado, não apenas fere a comunhão com Deus, mas também inquieta o interior humano, deixando o coração pesado e a alma sem descanso. Algo de que o salmista só conseguiu se libertar por meio da graça de Deus e por um árduo processo, marcado por confronto, confissão, arrependimento e renovação interior (1 Samuel 12; Salmo 51);


  • Sim, a dor da alma também pode estar relacionada com a fraqueza humana: a fraqueza faz parte da condição humana. Mesmo pessoas fiéis a Deus passam por momentos de abatimento, medo ou cansaço, reflexos de uma humanidade fragilizada, que sofre com as imperfeições de um mundo quebrado pela Queda, corroído pelo mal e que geme por redenção.


    Em 1 Reis 19.1–8, encontramos o profeta Elias vivendo um desses momentos. O mesmo homem que havia enfrentado o próprio rei e dizimado, corajosamente, mais de quatrocentos dos falsos profetas, agora caminha sob a sombra do medo, abalado pela ameaça de morte feita por uma única mulher.

     

    Exausto e emocionalmente esvaziado, Elias se deita debaixo de um zimbro e pede para morrer, revelando a profundidade de seu abatimento interior.


    Isso não significa que ele estava em pecado ou que seu coração havia se desviado do Senhor. Não! Tanto que o Senhor não o repreende, nem o acusa. Antes de tratar a alma, Deus cuida do seu corpo, antes de corrigir o caminho, Ele restaura suas forças. E, então, um anjo o toca, pão lhe é entregue, água lhe é oferecida, e a chamada divina é simples e profunda: “Levanta-te e come, porque o caminho será longo”.


    A experiência do profeta Elias nos revela uma importante verdade, a de que Deus cuida de nós por inteiro. Para Ele, a parte física e a parte intangível caminham juntas, integradas como partes de um mesmo todo. Assim, descansar também é espiritual (Êxodo 20.8–10); alimentar o corpo é cuidado divino (Êxodo 16) e dormir pode ser, inclusive, um ato de fé (Salmo 4.8);


  • Sim, a dor da alma pode, da mesma forma, ser resultado de uma doença ou sofrimento real: quando a enfermidade visita o corpo, ela não bate à porta sozinha. Muitas vezes, traz consigo inquietação, medo, incerteza, dúvida, vulnerabilidade emocional, instabilidade espiritual, enfim, diante da dor real, a alma pode entrar em profundo conflito.


    Foi assim com Jó, quando foi afligido com feridas da cabeça aos pés (Jó 2.7 e 8), que o fez, logo em seguida, amaldiçoar o dia do seu nascimento (Jó 3.1). A enfermidade física de Jó, além da dor intensa, causou angústia emocional e questionamentos profundos sobre a vida e sobre o próprio Deus, condições que permaneceram até Jó receber a restauração completa do Senhor, que abençoou o seu último estado, muito mais do que o primeiro (Jó 42.10–17).


    Há aqui uma constatação importante, de que a dor física pode também atingir a alma, e nesse caso, o cuidado precisa ser integral, envolvendo graça, oração, apoio espiritual, comunhão com irmãos, descanso, e certamente, cuidado físico.

 

O que fica, por fim, amado leitor, é que a dor da alma não é algo banal, mas uma realidade importante que não está distante de cada um de nós. Todos estamos, em algum nível, expostos a ela.

 

A melhor parte é que a Palavra de Deus nos oferece uma esperança real e transformadora, a de que Deus não apenas vê, Ele age (Salmo 147.3) e cuida, de forma integral tanto de nossas necessidades físicas, quanto espirituais, (Mateus 6.31 e 32; Salmo 145.15 e 16), restaurando nossas vidas (Salmo 23.3) e renovando as forças daqueles que nEle esperam (Isaías 40.31).

 

E assim, em meio ao silêncio das dores que ninguém vê, a alma aprende a descansar, não na ausência de lutas, mas na presença fiel de Deus. Porque, mesmo quando o coração vacila, há uma esperança que não se apaga, mas renova, sustenta, e pouco a pouco, faz florescer vida onde antes havia apenas cansaço, dor e desespero.

 

Editorial de Walter Feliciano


 
 
 

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