A Criança No Plano De Deus
Recentemente passei por uma situação que me fez refletir em como temos ensinado nossas crianças. Eu tenho uma filha que nasceu com uma síndrome rara, a qual afeta os ossos da face. Levei a minha filha a um parquinho e logo que chegamos uma criança fez um comentário maldoso. No final daquele dia, comecei a pensar em como temos ensinado nossas crianças a lidar com o próximo, a cuidar, a acolher e, ao mesmo tempo, se proteger.
Será que temos tratado as nossas crianças como pessoas que só precisam ser distraídas e entretidas? Ou estamos cuidando do coração delas?
Nós, como adultos, podemos facilmente nos perder na rotina, no trabalho e nas “questões importantes” da vida adulta e esquecer de que há pequenos olhos nos observando, nos admirando e nos imitando. Seja pai, mãe, irmão ou tio, se você está inserido em uma comunidade, sua vida tem impactado esses pequenos olhos.
Como temos agido perto das nossas crianças? O que temos ensinado com as nossas ações e palavras? Se temos imitado a Cristo precisamos ter em mente que Ele mesmo disse para que deixassem as crianças se aproximarem dEle, pois o reino dos céus pertence aos que são como elas (Mateus 19.14). E nós? Temos deixado as crianças se aproximarem? Temos aprendido com elas sobre dependência, humildade e confiança?
Dependência e Cuidado
Como a maioria das “crianças-adolescentes” de 3 anos de idade, a minha filha está naquela fase de falar: “Deixa que eu faço sozinha!”. Muitas vezes ela realmente consegue fazer sozinha, mas em outras, ela volta atrás e pede ajuda, ou se frustra tentando por muito tempo e falhando. Engraçado como, com certa frequência, podemos nos enxergar nessa cena. “Deus, pode deixar, isso aqui eu consigo fazer sozinho”. E, por mais vezes do que gostaríamos de admitir, nos machucamos diante do nosso próprio pecado, diante da nossa falsa autossuficiência. Assim como as crianças, queremos alcançar o interruptor sem ter, ainda, a altura suficiente, queremos ver se a chama do fogão pode mesmo nos queimar ou queremos, simplesmente, conseguir amarrar nossos sapatos, mas não é a hora ainda. Há o momento certo para cada coisa (Eclesiastes 3). Há pessoas que podem nos ajudar enquanto ainda não conseguimos sozinhos. E por que não ensinaríamos nossas crianças a cuidarem umas das outras? O que podemos ter certeza é de que a qualquer hora, minuto ou segundo, podemos correr para os braços do nosso Pai e sermos totalmente dependentes e vulneráveis diante dEle.
Humildade e Acolhimento
Imagine, depois de cantar os parabéns e todas as fotos serem tiradas, os pais da criança liberarem os doces e, de repente, não haver uma correria para ver quem pega os melhores doces ou quem pega um de cada sabor. Não sei você, mas até hoje eu só fui em um evento no qual não teve essa maratona para a mesa do bolo. Em Filipenses 2.3, o apóstolo Paulo nos lembra: “Não façam nada por interesse pessoal ou vaidade, mas por humildade, cada um considerando os outros superiores a si mesmo”. Como podemos, na prática, considerarmos os outros superiores a nós mesmos? Além de deixar o melhor docinho para o próximo, é claro. O que Cristo nos pede é algo mais profundo. Ele nos fala para amarmos o próximo como a nós mesmos (Mateus 22.39), amarmos como Ele nos amou (João 13.34 e 35) e servirmos uns aos outros (Gálatas 5.13). Não se trata de abrir mão de pequenos interesses ou pequenos prazeres, se trata de sacrificar nossos bens mais preciosos, aqueles que queremos guardar só para nós mesmos. É abrir mão do dinheiro e ajudar o irmão a pagar a mensalidade da faculdade, é abrir mão do tempo assistindo uma série para servir um irmão que precisa pintar o quarto do filho que está prestes a nascer, é abrir mão de uma festa de um amigo querido para ir consolar um casal que recebeu, mais uma vez, a notícia de que a esposa não engravidou.
Precisamos estar disponíveis aos nossos irmãos e compartilhar da vida em comunidade. As crianças precisam estar nesse contexto de colaboração mútua e, com certeza, aprenderão enquanto nos assistirem vivendo o Evangelho.
Confiança e Proteção
Quantas vezes passamos por situações na vida nas quais não fazemos ideia do porquê Deus permitiu que aquilo acontecesse? O que Ele quer nos ensinar? O que fizemos de errado ou de certo para isso acontecer? Quem foi que pecou (João 9.2 e 3)? E voltamos a ser crianças, sem entender por completo o motivo, apenas confiando que Deus sabe mais, Ele sabe o que é melhor para as nossas vidas. Jesus afirmou que “isso aconteceu para que nele (o homem cego de João 9) se manifestem as obras de Deus”. Ele não prometeu que não iria doer, pelo contrário, Ele afirmou que sofreríamos, que passaríamos por aflições nesse mundo. Mas Ele venceu o mundo (João 16.33)!
De tempos em tempos preciso entregar minha filha acordada no centro cirúrgico. A enfermeira vem “arrancá-la” do meu colo e ela chora desesperadamente. Por dentro, e algumas vezes por fora, eu choro desesperadamente quando viro de costas para ela. Nessa hora, minha filha não entende o porquê está passando por isso, não entende que aquela cirurgia pode melhorar a vida dela. Acredito que tampouco ela confie em mim nesse momento. Mas quando ela sai da cirurgia e olha para mim, ela só quer ficar nos meus braços e descansar. Ela entende que está segura.
Por vezes fazemos o mesmo com Deus, podemos vacilar em confiar nEle, mas sabemos que é nos braços dEle que encontramos segurança e descanso. Cristo é o nosso protetor e Salvador. A quem temeremos (Salmo 27.1)? Se Deus é por nós, quem será contra nós (Romanos 8.31)? As crianças também precisam ter essas verdades impressas no coração delas. Elas também passam e/ou passarão por momentos muito difíceis na vida. Precisamos ensiná-las que elas não estão sozinhas. Deus está com elas nos momentos de bullying, no centro cirúrgico, na perda de uma pessoa amada e em todos os momentos, felizes ou tristes. Sabendo quem está com elas, as nossas crianças poderão se sentir protegidas e aprenderão a reagir às situações complicadas, com a segurança de que não estão sozinhas.
Que as nossas crianças possam crescer sabendo em quem podem confiar, quem cuida delas e onde encontrar proteção. Os braços do Senhor estão sempre abertos para os pequeninos — e para nós, adultos, também!
Para reflexão:
Como a nossa maneira de viver tem impactado as crianças ao nosso redor?
Quando as nossas crianças enfrentarem situações que não conseguem compreender, saberão onde encontrar segurança e proteção?
Como temos aprendido com as crianças a vivermos o Evangelho?
Editorial de Camila Barbosa

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