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A Humanidade Como Imagem de Deus

  • há 5 horas
  • 4 min de leitura

Dentre os muitos aspectos sob os quais Deus nos criou (Gênesis 1.26–28), “à Sua imagem e semelhança” certamente tem um papel crucial na nossa identidade e valor, mas não é o que vem primeiro à nossa mente ao nos definirmos. Temos facilidade em apontar para a criação, os céus com seu arrebol, as flores de um jardim, a beleza do voo dos pássaros e ficarmos maravilhados como tudo isso reflete a beleza e a grandiosidade do nosso Criador. Quanto mais, então, deveríamos aprender sobre o ser humano no qual Deus colocou Sua própria imagem (Salmo 8.3–6).

 

Mas, note, há algo de imperfeito nessa dinâmica. Alguém já disse que, se nos aproximarmos de um passarinho, a reação natural é que ele voe para longe, então há algo de fundamentalmente errado no mundo. Da mesma forma, a Queda afetou a nossa identidade de diversas formas; e afetou a nossa visão de Imago Dei em cada alma.

 

Há uma década, procurando um leito em um hospital infantil, percebi algo interessante: passando rápido pelos corredores, olhos fixos nos números dos leitos, vi visitantes que não queriam olhar para aquelas pequenas crianças que “refletiam a imagem de Deus”. Não queriam, ou até, talvez, não suportavam olhar. Estas Imago Dei, desde pequenas, podem sofrer muito, como resultado do pecado original, desde não serem vistas, até sofrerem desprezo, porque este mundo caído lhes deu outra condição: seja no corpo, seja na mente.

 

Às vezes, essa realidade não será apenas vista em um hospital, mas nos próprios corredores da igreja. Ali, você inevitavelmente encontrará alguém diferente de você — pessoas atípicas, neurodivergentes, com deficiências físicas, intelectuais ou sindrômicas. Elas respondem e se comunicam de outra forma, mas continuam sendo pessoas à imagem de Deus. Quando as vir, não enxergue apenas o fardo da Queda; veja que, em Cristo, elas também expressam a beleza do Criador. Afinal, um dos fardos mais pesados que essas pessoas podem carregar é o de se sentirem excluídas justamente dentro do Reino de Deus que deveria ser um lugar seguro, um abrigo.

 

É um tópico importante perceber a beleza que há nas variadas formas que cada vida humana espelha a imagem de Deus. É um privilégio analisar a multifacetada graça de Deus agindo em nossas vidas desde a formação da nossa identidade. Acredito que também é essencial para a nossa teologia refletirmos sobre como nós, “imagem de Deus”, fomos afetados pela Queda; em seguida, restaurados por Cristo, e no futuro, seremos restaurados de forma perfeita.

 

Para definir o que é ser a imagem de Deus, usarei emprestada a explicação de Calvino, nas Institutas¹:


"Pois que a imagem de Deus se estende a tudo por que a natureza do homem sobrepuja a todas as espécies de animais, esse termo compreende toda a integridade de que foi dotado Adão, quando era senhor de uma inteligência reta, quando tinha seus afetos subordinados à razão, quando todos os seus sentidos eram bem regrados e quando verdadeiramente ele referia a excelência de seus dons ao seu Criador".


Percebe como o autor utiliza o passado? Isto se dá porque, como espelhos quebrados refletem uma imagem imperfeita, assim falhamos em refletir a imagem do Criador ao rompermos nossa relação com Ele. E isso causou toda sorte de distorções da Palavra de Deus entre aqueles que deveriam refletir um Criador que é Santo e Triúno!

 

“Mas Deus….” (Efésios 2.4 e 5)! Deus já sabia que haveríamos de pecar; e já havia arquitetado o plano de salvação através de Seu filho! Um plano para fazer convergir nEle todas as coisas (Colossenses 1.20) e ser o Primogênito entre muitos irmãos (Romanos 8.29).


Veja o que C. S. Lewis², filósofo cristão do século XX, comentou sobre a natureza do homem em Jesus:


“Em Cristo, um novo tipo de homem surgiu; e a nova espécie de vida que ucomeçou nele deve ser colocada dentro de nós. [...] O Novo Homem é uma criatura que caminha sobre as águas, que ressuscita dos mortos, que atravessa paredes trancadas. Não é que ele seja um fantasma e, por isso, as paredes físicas não consigam detê-lo; é que ele é mais 'sólido' do que as paredes".

 

Cristo restaura em nós a imagem de Deus — Seu plano original! Perdidos, confusos com o que o mundo diz sobre nossa identidade, preocupados com o que a Queda afetou e como nos diversificou, podemos ainda crer na restauração da nossa identidade em Cristo, onde tudo se fará novo!

 

Outra reflexão interessante, do mesmo autor, mostra a lógica reversa do Reino quando explica as palavras de Jesus em Mateus 16.25: 


"Olhe para Cristo e você o encontrará, e com Ele, tudo o mais que lhe foi prometido. No final, você descobrirá que os homens que se entregaram a Ele se tornaram seres reais — de fato, mais do que anjos, brilhando como o sol, cheios de energia, beleza e alegria eterna".

 

Naquele dia então, seremos verdadeiramente humanos, como fomos projetados para ser. Seremos diversos em nossas histórias, povos, línguas e atipicidades; mas perfeitamente unidos em apontar para a glória de um Deus que é Criador, Redentor e Supremo em Seus planos.


Que ao olharmos para cada irmão e irmã na comunidade de fé, e até para outras pessoas não cristãs à nossa volta, jamais nos esqueçamos: há um valor intrínseco e eterno colocado por Deus em cada uma dessas vidas, e cada alma anseia pela mesma redenção que há em Cristo Jesus.


Editorial de Milena J. Noll da Silva 

¹CALVINO, João. As Institutas ou Instituição da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo. Tradução de Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. 4 v.

²LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. Tradução de Gabriele Greggersen. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017. 288 p.

 
 
 

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