A Trindade: O Fundamento Da Nossa Fé
C. S. Lewis, em seu ensaio Transposição, nos convida a imaginar a história de uma mulher que, aprisionada em uma masmorra, ensina ao filho como é o mundo exterior por meio de desenhos feitos a lápis. Para o menino, que jamais conheceu outra realidade, as árvores, os rios e as montanhas eram estritamente aquelas linhas sobre o papel. Quando ele descobre que, fora da masmorra, não existem tais linhas de grafite, passa a pensar que o mundo exterior é vazio. Lewis nos ajuda a perceber algo importante sobre o conhecimento de Deus. O menino conhecia verdadeiramente algo sobre o mundo exterior por meio dos desenhos, mas eles não podiam conter tudo o que o mundo era realmente. As linhas eram verdadeiras, mas não eram capazes de circunscrever uma realidade muito maior do que elas. Da mesma forma, podemos conhecer verdadeiramente a Deus por meio daquilo que Ele escolheu nos revelar, ainda que nossa compreensão não seja capaz de abarcar a plenitude de Seu ser. É tendo isso em mente que devemos contemplar o mistério da Trindade. Nosso intuito, como escreveu Pedro Pamplona: “não deve ser resolver o mistério, pois, em Deus, o mistério da Trindade não é um problema a ser solucionado, mas uma dádiva a ser recebida. É a dádiva do maravilhamento que nos leva à adoração e da transcendência divina que nos leva à humildade”. (ênfase da autora)
Segundo Wayne Grudem, a doutrina da Trindade pode ser definida da seguinte forma: “Deus existe eternamente em três pessoas — Pai, Filho e Espírito Santo —, cada pessoa é plenamente Deus, e existe um só Deus”. A fim de estudarmos brevemente essa afirmação, vamos dividi-la em quatro partes: a revelação de três Pessoas distintas, a plena divindade de cada uma delas, a verdade de que as três Pessoas constituem um único Deus e a distinção entre as Pessoas.
As Escrituras Nos Revelam Três Pessoas Distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo
Já no Antigo Testamento, encontramos elementos que, à luz da revelação do Novo Testamento, apontam para essa pluralidade. Em Isaías 6.1–10, o profeta contempla Yahweh assentado sobre o trono. Mais tarde, em referência a essa passagem, João afirma que Isaías viu a glória de Cristo (João 12.41), e o apóstolo Paulo declara que foi o Espírito Santo quem falou por meio do profeta (Atos 28.25). A revelação das três Pessoas alcança seu ápice no Novo Testamento com a encarnação do Filho e a vinda do Espírito Santo. No batismo de Jesus, vemos essa manifestação conjunta do Pai, do Filho e do Espírito Santo: o Filho está nas águas, o Espírito Santo desce sobre Ele e a voz do Pai é ouvida dos céus (Mateus 3.16 e 17), apresentando as três Pessoas simultaneamente e em distinção uma das outras. Também encontramos essa distinção das três Pessoas, por exemplo, na ordem batismal de Mateus 28.19, na bênção apostólica de 2 Coríntios 13.13 e na saudação de 1 Pedro 1.2.
A Plena Divindade de Cada Uma das Pessoas da Trindade é Igualmente Afirmada nas Escrituras
O Pai é conhecido como o Deus Criador e Senhor Soberano de todas as coisas (1 Coríntios 8.6). Podemos ver, em diversas passagens, a afirmação também da divindade de Jesus. Em João 1.1, por exemplo, Aquele que é a Palavra de Deus é apresentado como Aquele que estava no princípio de todas as coisas, que Se encarnou e viveu entre nós: o Deus unigênito, luz dos homens, Jesus. Ou seja, em seu prólogo, João afirma que o Filho é Deus. Temos também a referência de João 8.58: “Eu lhes afirmo que, antes de Abraão nascer, Eu Sou”. Jesus se apresenta como maior que Abraão e utiliza para Si o nome que Deus usou para Se revelar a Moisés. No que tange à revelação da divindade do Espírito Santo, vemos, por exemplo, no texto de Atos 5, que, para Pedro, mentir para o Espírito Santo é o mesmo que mentir para Deus, porque o Espírito Santo é Deus.
Tendo Afirmado Que o Pai, o Filho e o Espírito Santo São Plenamente Deus, Pensemos Também em Como Três Pessoas São um Único Deus
A razão pela qual três Pessoas são um único Deus se apoia, em primeiro lugar, no fato de compartilharem a mesmíssima e indivisível substância divina (homoousios). Essa unidade também se expressa na doutrina da pericorese. Pericorese é a doutrina da mútua habitação das Pessoas divinas, pela qual o Pai está no Filho, o Filho está no Pai e o Espírito Santo está no Pai e no Filho. Em João 14.10 e 11, temos o próprio Senhor Jesus revelando essa mútua habitação ao dizer: “Eu estou no Pai, e o Pai está em mim”. Essa comunhão também pode ser percebida na maneira como o Espírito Santo é apresentado nas Escrituras em Sua relação com o Pai e com o Filho, sendo chamado de “Espírito do Pai” (Mateus 10.20) e “Espírito do Filho” (Gálatas 4.6). Dessa forma, as Pessoas divinas não existem de maneira isolada, mas em perfeita comunhão e unidade. As obras de Deus são inseparáveis: o Pai, o Filho e o Espírito agem com uma só vontade e um só poder, cada qual segundo sua ordem: do Pai, pelo Filho, no Espírito.
Se as Três Pessoas São um Só Deus, Como Podemos Distingui-las?
Não conseguimos diferenciá-las pelas categorias humanas habituais, como tempo, espaço ou substância, uma vez que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são coeternos, onipresentes e possuem a mesmíssima e indivisível essência divina. A distinção entre as Pessoas se dá a partir de Suas relações eternas de origem. Nessas relações, o Pai é o não gerado, Aquele que eternamente gera o Filho; o Filho é Aquele que é eternamente gerado pelo Pai, conforme vemos em João 5.26, quando Jesus diz que o Pai concedeu ao Filho ter vida em Si mesmo; e o Espírito Santo é Aquele que eternamente procede do Pai e do Filho, sendo apresentado por Jesus como o Espírito da verdade que procede do Pai em João 15.26.
A doutrina da Trindade está no centro da nossa vida cristã. A unidade e a pluralidade divinas constituem o padrão supremo para nós. Assim como o Pai, o Filho e o Espírito Santo coexistem em perfeita comunhão e igualdade, mantendo Suas distinções pessoais, a igreja é chamada a formar um só corpo enquanto acolhe e valoriza a variedade de dons, vocações e ministérios de cada um de seus membros.
Para reflexão:
O que a comunhão entre as Pessoas da Trindade nos ensina sobre a vida da igreja?
Como o conhecimento da Trindade deve nos conduzir à adoração?
O que a doutrina da Trindade nos ensina sobre o amor?
Editorial de Vitória Saraiva

Referências:
PAMPLONA, Pedro. Como Deus é um e três ao mesmo tempo?
LEWIS, C. S. O Peso da Glória.
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