As Bem-aventuranças: Os Humildes de Espírito

O que são as bem-aventuranças? Talvez pareça uma pergunta desnecessária, com uma resposta óbvia, mas não é. Eu creio que o texto até nos é familiar, porém não é um texto corretamente compreendido em sua profundidade.


De uma maneira clara e profunda, as bem-aventuranças nos mostram marcas do caráter que Deus espera ver nos Seus filhos. Elas nos mostram como se parecem os "bem-aventurados". Mas, mais do que apenas isso, elas nos mostram o caráter do nosso Rei, Jesus.


Nesse sentido, as bem-aventuranças são características que nós, servos do Rei, desenvolvemos por amor ao Rei e com base no amor do Rei. Porque Deus nos ama, e nós amamos a Deus, buscamos isso; e porque Ele nos ama, e nos deu seu Filho, somos capazes de buscar isso.


Uma diferenciação, no entanto, é importante. O texto mostra como os discípulos devem viver, e não o que fazer para ser um discípulo. A diferença parece pequena, mas é gigante. Porque somos discípulos, vivemos como discípulos. A própria palavra “bem-aventurado” mostra isso em certo nível. Não é uma ideia tão subjetiva e momentânea como estamos acostumados a pensar sobre felicidade. É uma certeza, é uma posição, é a forma como Deus nos enxerga dentro da Sua aliança, é o nosso estado após termos sido comprados por Cristo.


Por isso, as “bem-aventuranças” irão refletir o caráter do cidadão do Reino de Deus. Em Mateus 5.3–12, Jesus está dizendo para nós o que significa ser Seu discípulo, como é a vida do Reino, como Ele quer que vivamos. É a descrição de um caráter, implicando em constância, e não em atitudes isoladas.


Isso significa que temos um padrão extremamente elevado. São oito características completamente antinaturais para nós, pecadores. Ainda assim, Deus nos chama a buscar cada uma delas. E também é importante enfatizar que cada uma das “recompensas” na verdade não devem ser entendidas como recompensas, mas como “consequências” de sermos quem nós somos. Jesus não está dizendo: “seja humilde de espírito para ganhar o reino dos céus”. Ele está dizendo: “o reino dos céus pertence àqueles que são humildes de espírito”. Em nenhum sentido é algo meritório. Sendo quem somos — discípulos de Jesus, já possuímos essas coisas.


Humildes de Espírito


Uma vez posto o fundamento e a definição, podemos entrar na primeira das bem-aventuranças.


“Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.”

(Mateus 5.3)


Faz todo sentido que Jesus comece com essa característica, porque de certa forma todas as outras são dependentes dela. Humildade de espírito, em outras palavras, é convicção de pecado e reconhecimento da nossa posição diante de um Deus Santo e Justo.


É impossível alguém ser salvo sem essa convicção. É o reconhecimento da nossa incapacidade e dependência de Deus. É a convicção de que não merecemos nada, que tudo é fruto da graça de Deus. É basicamente um sinônimo de salvação!


O texto de Isaías 66.2 também traz um aspecto muito interessante ligado a essa humildade de coração. O final do versículo diz assim: “Abençoarei os de coração humilde e oprimido, os que tremem diante de minha palavra”. Os humildes de espírito são pessoas que amam a Palavra, que entendem que a Bíblia é a Palavra de Deus, que buscam conhecer mais de Deus através da sua Palavra, que guardam essa Palavra no coração, que vivem de acordo com o que Deus nos diz na sua Palavra.


Um cristão que não ama a Palavra de Deus é alguém estranho. No Salmo 19.10, Davi diz que os mandamentos de Deus “são mais desejáveis que o ouro, mesmo o ouro puro. São mais doces que o mel, mesmo o mel que goteja do favo”. A humildade de espírito nos leva a amar a Palavra do Senhor, a nos submeter a Ela, e a gastarmos tempo com Ela.


Isso nos dá um parâmetro bastante prático para avaliarmos nossa condição nessa característica. O tempo que investimos conhecendo ao Senhor é um reflexo de quanto entendemos nossa condição, e de quão profunda é nossa compreensão de quão necessitados somos do Senhor.


E essa afirmação nos traz uma implicação. Aquilo que deixamos para as pessoas é aquilo que tem mais valor para nós. Nós não entregamos algo que não temos. Nós não vivemos algo que não conhecemos. Então...

  • Quão clara e profunda é a nossa compreensão do Evangelho?

  • O que tem mais valor para nós?

  • Onde temos investido nosso tempo?

Tudo começa com um coração humilde, que se entregou a Cristo como único e suficiente Salvador, e que ama e confia na sua Palavra.


Editorial de Gustavo Santos