Fé e Ciência: Inimigos ou Aliados?
Um púlpito e um laboratório parecem lugares muito diferentes. No primeiro, um livro de milhares de anos é lido, exposto, cantado e, em última instância, crido. No segundo, problemas específicos do mundo físico são examinados em detalhe, mecanismos são identificados e soluções são propostas. Um parece estar no domínio do sobrenatural ou do intangível, onde o racional passa longe. O outro parece frio e estéril; calcular estatísticas e propor soluções para problemas matemáticos não requer o uso do coração. Fé e ciência são muitas vezes apresentadas exatamente assim. No mínimo, elas pertencem a domínios muito diferentes e não conversam entre si, e em muitos contextos, elas são colocadas como visões antagônicas. A impressão que fica é que ser cristão e cientista é um paradoxo, e que a Lei de Deus e a observação das leis da natureza entram sempre em contradição. Mas a Bíblia em si não rejeita que busquemos entender o universo de maneira racional — ela nos estimula a fazer isso. A história da ciência (e da igreja) exemplifica esse fato, e mostra que, até muito recentemente, cristianismo e ciência andavam de mãos dadas.
Os Dois Livros de Deus
Desde o primeiro livro da Bíblia, a glória de Deus é manifesta por meio da criação de um universo que tem toda a capacidade de nos maravilhar. Deus cria tudo por meio da Sua Palavra, e mesmo depois que o pecado entra no mundo, a Sua assinatura ainda se mostra clara. O rei Davi expressa isso no Salmo 19:
“Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.
Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite.
Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto,
por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo”.
(Salmo 19.1–4)
A criação reflete o caráter e a beleza do Criador, assim como uma poesia traz as marcas do seu autor. Essa criação, a mesma que motiva o progresso científico, é uma consequência direta da ação divina; em outras palavras, ela é como um livro que Deus escreveu. Paulo ressalta isso em Romanos 1.20 ao enfatizar a responsabilidade humana diante de Deus:
“Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder,
como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem,
desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. […]”.
Mesmo que alguém não conheça a Lei de Deus de maneira específica, a criação provê evidências suficientes para levar o homem a se render em adoração a Deus, como Davi fez. Teólogos chamam isso de revelação geral, o conhecimento de Deus obtido por meio da observação do mundo. A revelação geral não nos informa sobre o caminho para a salvação em Cristo, que é obtida por meio das Escrituras, a revelação especial de Deus. A primeira nos prepara para aquilo que iremos ler na segunda, enquanto a segunda explica muito sobre o que vemos na primeira (especialmente o estado e o propósito da criação). Porém, ambas apontam para o seu Autor, e por isso estão sempre em perfeita harmonia. Essa verdade é exatamente o que inspirou grandes cientistas do passado.
Sobre os Ombros de Gigantes
Não muito tempo atrás, o famoso cientista J. Robert Oppenheimer, um não cristão, afirmou que: “O cristianismo foi necessário para o início da ciência moderna pela simples razão de que o cristianismo criou um clima de pensamento que colocou o homem numa posição de investigar a forma do universo”. E parando para pensar, essa afirmação tem todo sentido. Como cristãos, cremos num Deus que se revela de maneira racional (usando uma linguagem que conseguimos entender), que criou um universo racional (que segue leis bem definidas); esse é o fundamento pelo qual os seres humanos podem usar a razão para estudar a criação.
Vemos essa mesma motivação em inúmeros cientistas que lançaram as bases da ciência moderna, como Kepler, Newton, Joule, Rayleigh, Faraday, Kelvin, Stokes e Maxwell, nomes que muitos de nós estudaram de alguma forma em algum momento de nossa formação acadêmica. A estrutura do universo foi criada por Deus, que nos deu a capacidade para tentar enxergar os padrões do seu funcionamento, e adorar ao Criador nesse processo. Foi exatamente isso que esses homens fizeram em seu tempo, e seus legados continuam até hoje. Cientistas cristãos esticam os limites do conhecimento e fazem boa ciência para a glória de Deus. O mundo reconhece seus méritos (por exemplo, mais de 60% dos ganhadores do Prêmio Nobel entre 1901 e 2000 eram cristãos), mas não reconhece o Deus que os motiva, e rejeita a Palavra dAquele que criou exatamente aquilo que desejam estudar.
Pecadores Fazem Ciência e Teologia
O que acontece então quando descobertas científicas parecem contradizer a Bíblia? Esse é possivelmente o ponto mais popular em debates sobre fé e ciência. É exatamente aqui que devemos nos lembrar que tanto o cientista quanto o teólogo são pecadores, e suscetíveis ao erro. Um exemplo clássico disso é o episódio de Copérnico, cientista do século XVI que provou que o sol era o centro do sistema solar. Suas observações desafiaram o que a igreja ensinava na época, e seu trabalho ajudou a corrigir um erro de interpretação das Escrituras por parte da igreja. A Bíblia não erra, mas a nossa interpretação do texto pode falhar — por isso o estudo sistemático da teologia e seus métodos de interpretação são tão importantes. O mesmo ocorre na ciência: teoricamente, ela se preocupa em descrever fenômenos e seus mecanismos a partir de observações, construindo modelos para prever resultados de ações como a queda de um objeto. Mas suas interpretações podem ser enviesadas, e suas limitações sempre devem ser levadas em conta. Por isso também é importante estarmos atentos a afirmações do tipo “a ciência provou isso ou aquilo”, especialmente quando vemos uma contradição clara em relação com o que a Bíblia diz. De qualquer forma, como cientistas e teólogos, nossa atitude deve ser um misto entre humildade e confiança. Humildade em entender a grandeza do Criador e Seu universo, e a nossa limitação decorrente do pecado. E confiança em saber que ambos os livros de Deus (Escrituras e Criação) são verdadeiros e que Ele nunca se contradiz. Ele mesmo nos ajuda na tarefa de desvendar Sua criação; não se espante quando notar que, em todo lugar, ela proclama a glória do seu Criador!
Para reflexão:
Você tem medo de interagir criticamente com a ciência de maneira geral, por medo de se afastar de Deus? Como podemos nos preparar melhor teologicamente para esse tipo de interação?
Como podemos usar a ciência e a observação da natureza para a glória de Deus?
Fé pressupõe abandono da racionalidade? Seguindo Hebreus 10, pense em como a fé bíblica se conecta com o caráter de Deus e Suas promessas, ao invés de servir como uma resposta genérica para aquilo que não entendemos.
Editorial de Petrônio Nogueira

Referências:
R. C. Sproul, “Defending your faith – an introduction to apologetics” (Crossway).
Vinoth Ramachandra, “A falência dos deuses” (ABU Editora).
John Lennox, “A ciência pode explicar tudo?” (Vida Nova).
John Lennox, “Deus e a ciência podem andar juntos” (Vida Nova).
Francis Schaeffer, “A morte da razão” (ABU Editora e Ultimato).
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