Ladrões de vitalidade: Preguiça

Chegamos ao fim da nossa série de editoriais sobre “ladrões de vitalidade”, focados em pecados que são muitas vezes socialmente aceitáveis, mas que nos impedem de dar passos concretos em direção à semelhança com Cristo. Neste último texto, iremos falar sobre algo que eu mesmo lutei enquanto escrevia este editorial (e que você mesmo pode estar lidando enquanto imagina se irá lê-lo até o fim): a preguiça. Este é um pecado interessante. Enquanto todos nós temos a plena consciência de como alguém preguiçoso (segundo nossos próprios padrões) pode levar a sua própria vida à ruína, a maioria não hesita em dar margem à preguiça quando se é conveniente. Nessas situações, desculpas como “eu mereço um tempo de descanso”, ou “eu já trabalho demais durante a semana”, ou até “posso fazer isso alguma outra hora”, são chavões que escondem um espírito que foca em satisfazer os próprios desejos em detrimento de alguma obrigação. A verdade é que todos somos preguiçosos em algum nível, e isso certamente impacta nosso relacionamento com Deus e com nossos irmãos, mesmo que não percebamos diretamente.


A origem da preguiça

A preguiça não foi o primeiro pecado da humanidade, mas sua origem é vista claramente no relato da queda. Após a criação do homem em Gênesis 2, Deus o coloca no jardim do Éden “para o cultivar e o guardar” (Gênesis 2.15). Adão não foi criado sem um propósito. Sua missão estava relacionada a um trabalho dado por Deus, o que dava uma especificidade à comissão dada em Gênesis 1.28; Adão iria “sujeitar a terra” por meio do seu trabalho, começando pelo jardim. O problema surge no capítulo seguinte. Após a queda, o juízo de Deus é visto também no relacionamento do homem com a terra:


“E a Adão disse: Visto que atendeste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te ordenara não comesses, maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida. Ela produzirá também cardos e abrolhos, e tu comerás a erva do campo.”

(Gênesis 3.17, 18)


Note que Deus não revoga sua ordem de sujeitar a terra; o problema é que esse trabalho iria ser penoso, e a fatiga iria ser algo constante na vida do homem. Isso é algo que todos podemos confirmar. E é justamente essa fatiga em fazer algo produtivo, em qualquer área que seja, que dá margem à preguiça. Deste lado da queda, toda satisfação de um trabalho é contrabalanceada pelo custo que ele nos exige, a ponto de muitas vezes deixarmos algo de lado e seguirmos por caminhos que não nos custem tanto, que sejam mais agradáveis. O problema é que, mesmo que tentemos negar, essa escolha sempre tem sérias consequências.


O impacto da preguiça

O texto de Provérbios 24.30–34 é uma das mais claras condenações à preguiça nas Escrituras. O texto deixa bem claro que, ao deixar suas responsabilidades de lado, o preguiçoso destrói o seu patrimônio e se deixa vulnerável à pobreza. O princípio ressaltado aqui é que, de maneira geral, ignorar responsabilidades e se entregar aos próprios desejos tem efeitos desastrosos. Literalmente, isso teve efeito no próprio sustento do preguiçoso de Provérbios. Enquanto isso pode ser aplicado diretamente à nossa ética de trabalho, o princípio se estende a todas as outras áreas das nossas vidas. Em especial, nosso relacionamento com outras pessoas também é algo que nos exige esforço e que tem responsabilidades associadas. Textos como Efésios 4.1–3 deixam isso claro no contexto do relacionamento entre irmãos: devemos nos esforçar “diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz”, uma ordenança que vai na contramão da preguiça. Relacionamentos quebrados muitas vezes vêm da nossa própria negligência em cultivá-los de maneira bíblica, simplesmente porque nos custa mais do que estamos dispostos a pagar. O mesmo se dá com nosso relacionamento com Deus. Não me entenda mal: o simples fato de termos um relacionamento com Deus vem da iniciativa divina em enviar seu Filho para morrer na cruz por nós, sem que tenhamos qualquer iniciativa nesse processo. Mas note como Pedro desenvolve as implicações para os que receberam a graça divina:


“por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência, associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a piedade; com a piedade, a fraternidade; com a fraternidade, o amor. Porque estas coisas, existindo em vós e em vós aumentando, fazem com que não sejais nem inativos, nem infrutuosos no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo.”

(2 Pedro 1.5–8)


Pedro tinha plena consciência de que o nosso relacionamento com Deus e crescimento como cristãos não era algo que ocorreria sem esforço. Mas colocando em perspectiva, devemos nos lembrar de que o esforço maior nesse processo foi do próprio Deus; preguiça, nesse contexto, é menosprezar o sacrifício de Cristo, e a sua obra em nossas vidas.


O fim da preguiça

A solução para esse pecado, assim como o de todos os que tratamos nos editoriais anteriores, se encontra na obra de Cristo. Sua vida nos mostra o perfeito exemplo de alguém que não poupou esforços para amar as pessoas à Sua volta, e para cumprir perfeitamente a Lei divina em cada aspecto. Sua morte mostra que esse esforço foi levado às últimas consequências, para trazer pecadores como eu e você para a família de Deus. Por meio desse mesmo sacrifício, temos o poder para lutar contra a preguiça, e tornar as nossas vidas úteis para Deus, andando nas boas obras que Ele mesmo preparou para nós (Efésios 2.10). O segredo está em olhar para Cristo.


O profeta Isaías, no fim de uma das mais claras referências ao Messias no Antigo Testamento, escreve que Jesus “verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito” (Isaías 53.11). Esse é, talvez, um dos maiores enganos do preguiçoso: ele acha que, por postergar seu trabalho, ele irá se poupar de desgastes e ter alegria imediata. Mas isso não é verdade. A alegria de Cristo em ver Seu trabalho completo deve nos servir de exemplo: o prêmio do nosso trabalho (no contexto daquilo que Deus nos dá como responsabilidades) é a alegria! E é por isso mesmo que Deus nos promete uma eternidade servindo-O (Apocalipse 22.3, 4); lá, a maldição da queda será revertida, e o servir a Deus não virá com o desgaste que experimentamos aqui, mas com puro júbilo. Até lá, que essa promessa nos inspire a nos empenhar diligentemente nas tarefas que Deus nos deu, e sermos produtivos para Aquele que nos salvou!


Nota: Texto baseado em devocionais da Igreja Batista Maranata, e no vídeo “Os 9 pecados da preguiça”, de Yago Martins.


Editorial de Petrônio Nogueira


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