Luto e Perda Gestacional: O Bebê Que Não Chegou
- há 3 dias
- 5 min de leitura
Uma Dor Que Muitos Carregam Em Silêncio
Há perdas que o mundo não sabe muito bem como lidar. Não existe cartão de condolências para um aborto espontâneo. Não há procedimento universal reconhecido de como uma família deva se despedir de alguém que ainda não tinha certidão de nascimento, mas que já tinha um lugar reservado no coração de muita gente. A perda gestacional é assim. É uma perda real demais para ser ignorada, mas invisível demais para ser amplamente reconhecida, quanto mais tratada.
Precisamos falar sobre essa dor. Ela não vai embora simplesmente porque decidimos ignorá-la, seja por não saber o que fazer, seja pela tentativa de usar o silêncio como esconderijo. Na história de nossa família, tivemos que lidar com uma perda assim. Foi triste, foi difícil. Mas descobrimos que não estávamos sozinhos na construção de uma memória que não queríamos ter. A partir daí, vivenciamos essa dor outras vezes numa perspectiva diferente. Estivemos perto de quem recebeu a triste notícia: “Infelizmente, os exames confirmam que a gestação parou de evoluir”. Ouvimos de gente que não encontrou paz nas boas intenções do médico: “eu quero que você saiba que nada do que você fez, comeu ou sentiu causou isso”. Passamos por algo assim, estivemos perto de gente assim e ainda assim lutamos para encontrar palavras para consolar uma dor, que embora seja comum, tem sempre uma embalagem única. Descobrimos que esse é um sofrimento que se espalha em ondas. Ele alcança o casal, mas também alcança os avós que já haviam sonhado, tios que fizeram planos, os amigos que já tinham comprado um macacão do time do pai, os irmãos da igreja que não sabem se perguntam, se evitam o assunto, se mandam mensagens ou se ficam quietos.
Mais gente sofre do que imaginamos. E mais gente ainda fica paralisada, sem ação, sem fala. Não é por indiferença, mas por não saber o que fazer com uma dor tão estranha, tão grande e tão silenciosa.
O Bebê Que Existiu
Antes de qualquer consolo, precisamos afirmar algo simples e profundo: aquele bebê existiu. Não é exagero dizer isso. Não é sentimentalismo. É teologia.
O Salmo 139 nos oferece uma das imagens mais belas e mais desconcertantes da Bíblia sobre a vida humana. Davi, meditando sobre o conhecimento de Deus, chega ao útero materno como prova da soberania divina: "Tu formaste o meu interior; tu me teceste no ventre de minha mãe" (versículo 13). E mais adiante: "Os meus dias foram formados quando ainda não havia nem um deles" (versículo 16).
Isso não é poesia superficial. É uma declaração sobre quem Deus é e sobre o que Ele faz no silêncio e no mistério da vida que se forma. Não ouvimos o choro daquele bebê, mas ele foi conhecido por Deus. Foi visto, foi formado, seus dias foram contados, mesmo que tenham sido poucos, mesmo que seus dias tenham sido apenas alguns dentro do ventre. Deus não desconhece nenhum deles.
Para os pais que perderam, e para todos que amaram aquela vida junto com eles: o luto de vocês é legítimo porque a vida do bebê foi real.
O Peso Que Não Se Deve Carregar Sozinho
Um dos maiores erros que cometemos diante da perda gestacional é o silêncio constrangido. Muitas vezes, a família que perdeu aprende rápido a não falar mais sobre o assunto para não causar desconforto. E os que estão ao redor muitas vezes se calam também, por medo de causar mais dor. O resultado é que todos carregam um peso que ninguém tem coragem de nomear, mas todos sofrem.
O Salmo 34.18 diz que “o Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito abatido”. Essa promessa não é apenas individual, mas ela nos convida a sermos, uns para os outros, a representação da presença de Deus no meio da dor. Estar perto. Não necessariamente com as palavras certas, mas com a disposição de não fugir da dor do outro.
Para os que não sabem o que dizer, preste atenção: não precisam dizer muita coisa. Perguntar “como você está?” e aguentar a resposta, já é muito. Afirmar “estou orando por você!” e tomar um tempo para orar junto, já traz consolo. Sentar em silêncio ao lado de alguém que chora, já é muito. Não mudar de assunto quando o nome do bebê que foi perdido é mencionado, já é muito. A presença fiel vale mais do que o conselho perfeito.
Chorar Também é De Deus
Há uma bem-aventurança que precisamos lembrar: “Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados” (Mateus 5.4). Jesus não diz que os que se controlam serão consolados. Não diz que os que rapidamente superam serão consolados. Ele fala diretamente aos que choram.
O luto não é falta de fé. Chorar a perda de um filho que não chegou a nascer não é fraqueza espiritual. É uma resposta humana e honesta a uma realidade que dói de verdade num mundo quebrado. Jesus mesmo chorou diante do túmulo de Lázaro, mesmo sabendo o que estava prestes a fazer. O choro não é o oposto da esperança, o choro coexiste com a esperança, aguardando o dia em que toda lágrima será enxugada (Apocalipse 21.4).
Chorar pode ser o primeiro passo para receber o consolo que Jesus promete. E esse consolo não vem na forma de uma explicação satisfatória para o sofrimento, mas vem na forma de uma presença que atravessa a dor junto conosco. Jesus segura a mão dos que choram com Ele!
O Deus Que Consola Para Que Consolemos
O apóstolo Paulo escreveu a uma comunidade marcada pela dor quando disse: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e o Deus de toda consolação, que nos consola em todas as nossas tribulações, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação, com a consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus” (2 Coríntios 1.3 e 4).
Há uma corrente de graça aqui que é tanto bela como exigente ao mesmo tempo. Deus consola. Esse consolo não fica parado, ele flui para os outros através de nós. Quem passou pela perda e foi sustentado pela graça de Deus carrega algo valioso para oferecer a quem está perdendo agora. E a comunidade de fé, que conhece o Deus das misericórdias, tem tudo o que é necessário para estar presente de um modo que o mundo não consegue.
Isso é a igreja no exercício da comunhão: não um grupo de pessoas com respostas prontas, mas uma comunidade que aprendeu a receber consolo e sabe, por isso mesmo, oferecê-lo.
Confiando Na Soberania Sábia e Amorosa De Deus
No fim, ficamos diante de um mistério que não se resolve com argumentos. Por que aquela vida não continuou? Por que aquele bebê não chegou? A Bíblia não nos dá uma fórmula. Mas nos dá algo melhor: um Deus que conhecia aquela vida antes de nós, que a teceu com propósito, que conta os dias de cada um e que, no Evangelho de Jesus Cristo, demonstrou que não é indiferente ao sofrimento humano, mas entrou no mundo, sofreu nele, e triunfou sobre o sofrimento.
A soberania de Deus não é a soberania de um rei distante e frio. É a soberania de um Pai que chora com os que choram e que, no tempo certo, enxugará toda lágrima. Isso não elimina a dor de agora. Mas nos dá chão firme para pisar e palavras para nos lembrar enquanto caminhamos por meio da dor que nos tenta a cambalear em silêncio.
Se você está em luto, saiba: você não está invisível.
Se você está ao lado de alguém em luto, saiba: sua presença importa.
E se você não tem as palavras certas, lembre-se: às vezes o suficiente é simplesmente não ir embora. Fique, olhe para Jesus, e por intermédio de pessoas perdidas, como nós, encontradas pela compaixão divina, testemunhe o consolo de Deus.
Editorial do Pr. Alexandre “Sacha” Mendes

.png)



Bom dia,
Como faço pra compartilhar esse texto gestacional com outra pessoa?