Sabbath — A Rebeldia Do Descanso
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O brasileiro trabalhou, em média, 38 horas por semana em 2025, um pouco mais do que as 36,3 horas do norte americano, e um tanto menos do que as 44,6 horas do singapuriano.¹ Como toda média, esses números não refletem a situação de trabalho de todos num mesmo país — algumas profissões naturalmente exigem mais horas, enquanto outras permitem horários um pouco mais flexíveis. Mas não importa o país em que você vive ou a sua profissão, a realidade é que quase tudo o que precisamos na nossa vida é resultado de algum tipo de trabalho. Isso é visto de maneira prática em qualquer trabalho remunerado, e mais ainda em contextos envolvendo a agricultura, onde muitas vezes o seu sustento é definido pelo número de horas empregadas no campo. O mesmo acontece na vida em casa: aquela pia pingando não se conserta sozinha, o gramado não para de crescer e precisa ser aparado constantemente, o jantar precisa ser preparado, a casa precisa ser limpa... Há trabalho e fatiga em cada tarefa, mesmo nas mais básicas da nossa vida.
Ao mesmo tempo, a síndrome de burnout é um fenômeno cada vez mais comum na sociedade, algo que está intimamente ligado com demandas intensas (internas ou externas) de trabalho, e a incapacidade de se desconectar do trabalho e efetivamente descansar. A nossa sociedade está rapidamente perdendo o equilíbrio dado por Deus na Criação; estamos perdendo nosso ritmo saudável de trabalho e descanso. Diante da tentação de trabalho constante, em que o objetivo é sempre produzir algo, a Bíblia nos chama a olhar para o nosso Deus Criador, que revela para nós que descanso tem muito a ver com confiança. E é exatamente isso que vamos fazer nesse editorial. Vamos olhar para o nosso Deus, que modela esse ritmo de trabalho e descanso, mas Ele mesmo não descansa para o nosso benefício. Finalmente, vamos ver como o Seu trabalho nos sustenta hoje e a Sua promessa de descanso para a eternidade.
O Deus Que Modela o Descanso
O livro de Êxodo relata a saída do povo de Israel do Egito, ressaltando o cumprimento das promessas de redenção feitas a Abraão e a transformação de Israel em uma nação. Nesse contexto, Deus se revela ao povo de maneira sobrenatural, e dá instruções por meio do Seu mediador, Moisés. Essas instruções foram dadas em contraste às tradições do Egito e das nações da terra de Canaã; o povo não devia se amoldar aos costumes do povo em volta, mas devia ser completamente fiel a Deus, obedecendo Seus Mandamentos como uma resposta de confiança e gratidão pela Sua obra de redenção. É nesse contexto que lemos o quarto Mandamento:
“Lembra-te do dia de sábado, para o santificar.
Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra.
Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus; não farás nenhum trabalho,
nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva,
nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; porque, em seis dias,
fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou;
por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou.”
(Êxodo 20.8–11)
Veja que a base deste Mandamento vem da Criação. Deus descansa no sétimo dia, não por uma limitação própria, mas para nos dar o modelo do ritmo de trabalho e descanso que devemos ter — assim como Deus fez, a humanidade deveria fazer. É mais do que um presente para a humanidade (Marcos 2.27), é um reconhecimento da limitação do homem. Porém, não trabalhar um dia em cada sete, para qualquer sociedade baseada na agricultura ou pecuária, parece loucura — isso poderia ser a diferença entre conseguir a provisão necessária para o inverno ou não. Mas note o que Deus está fazendo com o povo aqui em Êxodo. Deus liberta Israel do Egito de maneira sobrenatural (desde o chamado de Moisés, as dez pragas e a abertura do Mar Vermelho), e sustenta o povo no deserto de maneira sobrenatural por meio do maná. Em todo o percurso, o próprio Deus trabalha na libertação e provisão do povo, e o maior desafio para o povo era confiar naquilo que Deus prometia (e vemos Israel lutar com isso por todo o período no deserto).
O Deus Que Não Descansa
Israel deveria descansar no fato de que, mesmo num dia de descanso, Deus não para de trabalhar por eles. Deus ativamente sustenta o universo desde a sua criação, dando chuvas no período certo, fazendo a natureza frutificar e enchendo o coração do homem de alegria (Atos 14.17). Jesus deixa isso claro em João 5.17: “[...] Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também”; Jesus, por ser Deus encarnado, não cessa de trabalhar por Seu povo! Jesus viveu uma vida perfeita na terra, cumprindo todas as ordenanças de Deus, e morreu numa cruz pagando o preço da nossa culpa — Ele trabalhou em nosso lugar e morreu em nosso lugar para que tivéssemos vida nEle. Mas Seu trabalho não parou nisso! Ele ressuscitou e está hoje à direita do Pai intercedendo continuamente por nós (Romanos 8.34; Hebreus 7.25). Segurança nesta vida (e para além dela) só é possível por causa da obra de Cristo — nEle podemos efetivamente descansar. Nosso Pai celeste não vai deixar de nos sustentar (Mateus 6.27–33), justamente porque somos Seus filhos, adotados por meio da obra de Cristo.
O Deus Que Nos Dá o Descanso Definitivo
Descanso terreno sempre foi uma promessa para o povo de Israel, condicionada à sua obediência às ordenanças de Deus. O escritor de Hebreus nos fala que, por causa da sua infidelidade, o povo não entrou nesse descanso, pois a promessa não foi acompanhada pela fé. Mas a promessa de descanso final é dada a nós, aqueles que creram por meio da pregação do Evangelho, nos quais o dom da fé foi derramado. A nós, o texto bíblico diz:
“Assim, ainda resta um descanso sabático para o povo de Deus;
pois aquele que entra no descanso de Deus também descansa do seu trabalho,
como Deus descansou do seu.”
(Hebreus 4.9 e 10)
O Deus que nos promete o descanso que as nossas almas anseiam é o mesmo Deus que garantiu esse descanso mandando seu Filho para morrer na cruz por nós. Que presente maravilhoso! Dane Ortlund, em seu devocional no livro dos Salmos, coloca essa verdade em perspectiva:
“O sábado foi ordenado para o povo de Deus para nos mostrar que Deus é um Deus de descanso, e que confiando nEle nós podemos encontrar descanso verdadeiro. [...] Este é um presente gracioso de Deus para que seu povo possa experimentar um pouco do descanso final que teremos um dia nos novos céus e nova terra”.
Que essa esperança esteja sempre em nossas mentes para que não caiamos na tentação de achar que o nosso trabalho sustenta o mundo — ou as nossas vidas.
Editorial de Petrônio Nogueira

¹ worldpopulationreview.com
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