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O Discernimento Na Era Da Mentira Digital

  • 9 de jul.
  • 4 min de leitura

Em 2013, uma jovem australiana chamada Belle Gibson conquistou milhões de seguidores nas redes sociais. Sua história era de fato inspiradora: ela afirmava ter recebido o diagnóstico de um câncer terminal e, contrariando todos os prognósticos, dizia ter vencido a doença por meio de uma alimentação natural e mudanças no estilo de vida.


Sua influência cresceu meteoricamente. Em função disso, não demorou para que seu conhecimento fosse monetizado: lançou um aplicativo, publicou um livro, participou de entrevistas, tornou-se referência para milhares de pessoas que buscavam esperança na luta contra a própria doença ou de familiares. Sua história era emocionante e convincente, suas postagens eram coerentes e tocavam numa dor e desejo genuínos das pessoas. Por isso, viralizou.

 

Até que veio a descoberta: Belle Gibson nunca teve câncer. Nunca! Tudo acerca de sua história e superação havia sido inventado.


O caso ganhou repercussão mundial não apenas pelo tamanho da fraude, mas porque revelou algo desconcertante sobre a maioria de nós. Milhões de pessoas acreditaram naquela história sem questioná-la. Afinal, ela parecia sincera, coerente, e tão verdadeira!

 

Vivemos justamente numa época em que "parecer verdadeiro" nas telas frequentemente vale mais do que ser verdadeiro na vida real.

 

Nunca tivemos tanto acesso à informação. Nunca fomos expostos a tantas opiniões, análises, vídeos, notícias e conteúdos. Ao mesmo tempo, nunca foi tão necessário cultivar o discernimento. O problema da era digital não é apenas a existência de mentiras, afinal, elas sempre existiram. A novidade é a velocidade com que elas circulam, a facilidade com que se tornam convincentes e cativantes, e a quantidade de pessoas dispostas a compartilhá-las antes mesmo de verificar se correspondem à realidade.

 

É por isso que Provérbios afirma que "o simples dá crédito a toda palavra, mas o prudente atenta para os seus passos" (Provérbios 14.15). A ingenuidade sempre foi um perigo, mas com a tecnologia que dispomos hoje, ela ganhou uma dimensão inédita. Basta alguns segundos para uma notícia atravessar continentes, moldar opiniões e render uma tropa de defensores convictos ou combatentes indignados, mesmo quando é completamente falsa.

 

Percebe outro desafio que vivemos hoje intensamente? O ambiente digital inteiro nos treina a reagir antes de refletir.

 

As plataformas foram construídas para disputar nossa atenção. Conteúdos que despertam medo, indignação ou forte emoção costumam receber muito mais destaque do que aqueles que simplesmente comunicam a verdade com equilíbrio. Para produtores de conteúdo, cursos e mais cursos são disponibilizados para construir histórias que “ativam gatilhos emocionais”, o que certamente desperta reação mais imediata ao chamado à ação daquela postagem, seja de engajamento, ou de venda.

 

Além disso, os algoritmos aprendem rapidamente nossas preferências e passam a nos mostrar cada vez mais conteúdos semelhantes. Aos poucos, vamos sendo cercados por pessoas que pensam como nós, lemos apenas aquilo que confirma nossas opiniões e começamos a acreditar que nossa visão representa toda a realidade. As chamadas bolhas digitais reduzem nossa disposição para ouvir, aprender e até reconhecer que podemos estar equivocados.

 

Nesse contexto, Efésios 4.25 ganha uma aplicação extremamente prática: "Por isso, deixando a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo".

 

No ambiente digital, isso significa muito mais do que não inventar histórias. Significa cultivar uma ética cristã da comunicação:

 

  1. Verificar se é verdade antes de compartilhar;

     

  2. Ler além do título, ou às vezes até mesmo além do próprio post completo, antes de reagir;

     

  3. Não divulgar informações não verificadas apenas porque reforçam aquilo em que já acreditamos; 


  4. Não usar argumentos duvidosos para defender causas corretas. A verdade nunca precisa da mentira para ser sustentada.

 

Esse compromisso também passa pela qualidade do nosso consumo de informação. Paulo nos oferece um excelente filtro em Filipenses 4.8: "Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, puro, amável, de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento".

 

Antes de perguntar se determinado conteúdo é interessante, útil ou viral, talvez devêssemos perguntar: ele é verdadeiro? É digno? É justo? Vale a pena ocupar meus pensamentos com isso?

 

Acredite: nem toda polêmica merece nossa atenção. Nem toda discussão exige nosso posicionamento. Em muitos momentos, a sabedoria bíblica nos conduzirá muito mais ao silêncio do que à reação impulsiva.

 

Jesus declarou: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (João 8.32). A verdade que liberta não é apenas um conjunto de fatos corretos; ela tem um nome. O próprio Cristo é a Verdade. Quanto mais nossa mente é moldada pela Palavra de Deus, menos vulneráveis nos tornaremos às manipulações emocionais e às falsas promessas que tem estado cada vez mais presentes em nosso meio.

 

A tecnologia é, sem dúvida alguma, uma dádiva da graça comum de Deus. Ela amplia nosso acesso ao conhecimento, aproxima pessoas, permite que o Evangelho alcance lugares antes inimagináveis. Mas, parafraseando o excelente autor Tony Reinke em seu excelente livro “12 maneiras como o seu celular está transformando você”, a tecnologia tornou a nossa vida mais fácil de muitas maneiras, porém a imaturidade e falta de discernimento podem torná-la autodestrutiva para nós.

 

Precisamos estar comprometidos com a verdade. Em uma cultura onde qualquer pessoa pode publicar qualquer coisa, provocando reações intensas e podendo desencadear desfechos imprevisíveis, o povo de Deus deve ser conhecido por amar a verdade acima de tudo, porque pertence Àquele que é a própria Verdade. Que isso seja visível em nossas interações digitais, para que Cristo seja engrandecido!

 

Editorial de Naná Castillo


 
 
 

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