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O Plano de Deus Para a Terceira Idade

  • 13 de ago.
  • 5 min de leitura

Poucas fases da vida são tão homenageadas em palavras e tão temidas na prática quanto a terceira idade. Honramos os mais velhos nas datas comemorativas e, ao mesmo tempo, vivemos numa cultura que investe fortunas para adiar, disfarçar e, se possível, negar o envelhecimento; como se ele fosse um defeito à espera de conserto.

 

A Bíblia aponta outro caminho. Ela não romantiza a velhice nem esconde o seu peso: fala com honestidade do corpo que se cansa e dos dias em que já não há prazer (Eclesiastes 12.1–7). Mas, porque não foge da realidade, consegue apresentá-la como aquilo que de fato é: um tempo com propósito definido por Deus.

 

Aprender a Contar os Dias

 

O Salmo 90, atribuído a Moisés, começa colocando cada coisa em seu lugar: Deus é eterno, e nós passamos. Nossa existência corre como um suspiro, como a relva que floresce de manhã e à tarde já murchou (Salmo 90.5 e 6). É desse contraste que nasce um dos pedidos que mais me desafia nas Escrituras:

 

“Ensina-nos a contar os nossos dias,

de tal maneira que alcancemos corações sábios.”

(Salmo 90.12)

 

Contar os dias não é calcular quantos anos ainda restam, já que sequer sabemos o que irá acontecer no próximo instante. É aprender a dar o devido valor ao tempo que Deus concedeu hoje. A realidade do pecado nos empurra para a ilusão de que viveremos para sempre neste corpo, e essa negação silenciosa da morte nos faz gastar décadas com aquilo que não permanece. Só pela graça de Deus o coração é liberto desse autoengano para viver em sabedoria. Olhar a própria finitude de frente, sem pânico e sem fingimento, é o que faz cada dia contar.

 

O Engano da Aposentadoria Espiritual

 

O conceito moderno de aposentadoria, resumido como o encerramento de toda atividade útil em troca de conforto e entretenimento, não encontra respaldo nas Escrituras. Deixar o mercado de trabalho é legítimo e, muitas vezes, necessário. Mas em lugar nenhum a Palavra de Deus sugere que o avanço da idade dispensa o cristão de amar a Deus e servir ao próximo, numa vida centrada em si mesmo.

 

Melhor pensar a velhice como uma redistribuição soberana do tempo. Livre das obrigações profissionais, a terceira idade dá uma liberdade que não se tem aos quarenta: agenda, experiência acumulada, conhecimento da Palavra de Deus e cicatrizes que ensinam. Existe o risco de chegar diante de Deus apenas com o passaporte carimbado de viagens, “brinquedos sofisticados” e sonhos realizados, mas a vida vazia de frutos. O alerta não vale apenas para quem já tem setenta anos: a preparação para uma velhice que glorifica a Deus começa cedo, com simplicidade voluntária, generosidade financeira e ousadia missionária.

 

Não faltam exemplos nas Escrituras. Calebe, aos oitenta e cinco anos, pediu a região montanhosa em vez de um canto tranquilo (Josué 14.10–12). Ana, viúva de oitenta e quatro anos, servia no templo noite e dia e foi uma das primeiras a reconhecer o Messias (Lucas 2.36–38). E o salmista promete que os justos “na velhice ainda darão frutos; serão viçosos e verdejantes” (Salmo 92.14).

 

Quando as Forças Não Voltam Mais

 

Aqui precisamos ter muito cuidado. Falar de frutos na velhice jamais pode virar cobrança de desempenho. Há irmãos que já não saem de casa, que dependem de outros para as tarefas mais básicas, que perderam a memória dos próprios netos. Se o valor de uma vida dependesse da sua produtividade, essas pessoas estariam perdidas e o Evangelho diria exatamente o contrário do que diz.

 

A segurança do cristão que envelhece não está no seu vigor, mas na fidelidade de Deus:

 

“Senhor, tu tens sido o nosso refúgio, de geração em geração”.

(Salmo 90.1)

 

O texto carrega o sentido de morada: Deus é a "casa" em que Seu povo habita, inclusive quando o próprio corpo já não é uma "casa" confortável. E a promessa é explícita: “até à velhice eu serei o mesmo, e ainda até às cãs eu vos carregarei” (Isaías 46.4). Por isso Paulo afirma que, ainda que o homem exterior se corrompa, o interior se renova de dia em dia (2 Coríntios 4.16–18). O declínio físico não é contagem regressiva para o esquecimento: é a antessala da glorificação, onde o Senhor nos “desmama” da Terra e intensifica nosso anseio pelo o céu.

 

Um Legado Que Sobrevive ao Trabalhador

 

Os idosos não são membros passivos, nem apenas destinatários de assistência. São peça essencial na transmissão da fé entre as gerações. Tito 2 descreve exatamente isso: homens e mulheres maduros ensinando os mais jovens pelo exemplo e pela conversa comum, sem depender de programas sofisticados (Tito 2.2–5). É discipulado que acontece na cozinha, no papo de calçada ou por meio de um telefonema.

 

O Salmo 90 termina pedindo que Deus confirme a obra das nossas mãos e revele a Sua majestade aos nossos filhos (Salmo 90.16 e 17). Esse é o alvo: um legado espiritual que permaneça depois que o trabalhador partir. Esse legado perdura independente do nome do mensageiro. Assim, o testemunho ideal do fim da jornada continua sendo o exemplo do apóstolo Paulo:

 

“Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”.

(2 Timóteo 4.7)

 

Não por acaso, as cãs são coroa de honra, quando encontradas no caminho da justiça (Provérbios 16.31).

 

O Papel da Igreja

 

Para que a nossa igreja cresça na compreensão e exercício do plano de Deus para as diversas faixas etárias, mais especificamente na velhice, devemos considerar três frentes atuando de forma conjunta:

 

• Ensinar e mobilizar. Desconstruir a ideia de inatividade espiritual do idoso, criando canais reais para que a experiência dos mais velhos seja desfrutada na vida da igreja (aconselhamento, acompanhamento de casais jovens, ensino, intercessão e visitação).

 

• Discipular e integrar. Evitar a segregação por faixa etária, criando espaços em que a sabedoria dos mais velhos se conecte de forma orgânica à energia dos mais novos, promovendo o cuidado mútuo e reduzindo o isolamento: uma das dores mais silenciosas da terceira idade.

 

• Cuidar e preparar. Quando o vigor para o serviço ativo já se foi, o corpo de Cristo manifesta o amor de Deus por meio de visitas, apoio prático e emocional aos cuidadores familiares e da proclamação firme da esperança da ressurreição.

 

Um Convite Para Todas as Idades

 

Se você já está na terceira idade, leia isso com atenção: os dias que Deus ainda lhe concede têm propósito, e o seu valor diante dEle nunca dependeu do que as suas mãos conseguem fazer. Se as forças permitem, sirva com alegria; se já não permitem, permaneça como testemunha viva da fidelidade de Deus. Reconheça que no Corpo de Cristo, cada membro tem um propósito e uma utilidade para o amadurecimento do todo.

 

E se a velhice ainda parece distante, comece hoje. A terceira idade não muda o caráter de ninguém, apenas revela o que foi cultivado ao longo de décadas. O idoso sábio, generoso e cheio de esperança é, quase sempre, o jovem que aprendeu cedo a contar os seus dias.

 

Enquanto isso, jovens e idosos esperamos juntos a mesma coisa: o dia em que o corpo será restaurado e a fé se tornará vista. Maranata! Vem, Senhor Jesus (Apocalipse 22.20).


Para reflexão:


  1. Se você contasse os seus dias com honestidade, o que mudaria já nesta semana? (Salmo 90.12).

  2. Que experiência da sua história você poderia investir hoje em alguém mais novo na igreja? (Tito 2.2–5).

  3. Quem, entre nós, já não consegue estar presente e qual será o seu próximo passo em direção a essa pessoa?


Editorial do Pr. Alexandre “Sacha” Mendes



 
 
 

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