A Cidade Como Missão
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- há 5 dias
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Série:
O CRISTÃO NA PRAÇA PÚBLICA
"Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal.”
(João 17.15)
Como deve ser o relacionamento de um seguidor de Jesus com a comunidade à sua volta? Como é possível ser relevante sem se contaminar? Como é possível se manter firme sem ser omisso ou isolado?
Todos temos grupos aos quais pertencemos. Esses grupos, que chamaremos de “tribos urbanas”, compartilham interesses, assuntos comuns, práticas esportivas, estilos musicais, hobbies, etc. Pode ser a turma do trabalho, do condomínio, da sala de aula, ou grupos dentro desses ambientes.
Há quem creia que ao entregar a sua vida para Jesus, o novo convertido deve agora abandonar seus “velhos ambientes”, deixar de andar com suas “tribos urbanas” e se dedicar exclusivamente ao seu novo ambiente separado e protegido. Essa visão busca proteger o novo convertido das más influências e garantir a santidade, até que essa pessoa esteja madura para poder ter contato com o mundo.
O objetivo dessa separação é legítimo: evitar que as más influências do passado desviem o novo convertido de um caminho de santificação. Porém, a Igreja não deve ser um esconderijo no mundo e sim uma luz para o mundo (Mateus 5.14–16).
Como podemos aprender de Jesus sobre isso? Duas histórias me vêm a mente:
Em João 4, vemos uma interação maravilhosa de Jesus com uma mulher samaritana. Essa mulher, marginalizada e rejeitada por sua comunidade, tendo em vista seu passado imoral, estava buscando água no poço “por volta do meio-dia” (João 4.6), o pior horário para um trabalho braçal no Oriente Médio. Jesus então se aproxima para uma interação muito improvável. Pois uma mulher naquela cultura e contexto não conversava publicamente com um homem, ainda mais sendo samaritana, pois havia uma inimizade entre judeus e samaritanos baseada em profundas divergências históricas, étnicas e religiosas.
Jesus intencionalmente e cirurgicamente se revela para aquela mulher, que crê em Sua mensagem (João 4.7–26). Ao final, a mulher deixa seu cântaro para trás e vai para a cidade convidando o povo para que fosse conhecer a Jesus.
Esta mulher acordou adúltera e envergonhada e foi dormir uma alegre missionária.
Semelhantemente, em Lucas 8.26–39, Jesus se depara com um homem endemoniado. Havia muito tempo que esse homem não se vestia nem morava em casa. Quando o acorrentavam, ele despedaçava tudo e era impelido, pelos muitos demônios que o possuíam, para lugares desertos. Jesus expulsa os demônios, que entram nos porcos, que se jogam despenhadeiro abaixo.
No final, quando Jesus, impelido pelo povo, estava para ir embora, o homem lhe pediu que o deixasse estar com ele. Mas Jesus respondeu: “Volte para a sua casa e conte tudo o que Deus fez por você” (Lucas 8.39).
Este homem acordou endemoninhado e oprimido e foi dormir um alegre missionário.
Ao ler essas histórias, imagino como eu me portaria em situações semelhantes. Imagino se eu teria a mesma postura de Jesus. Creio que se eu me deparasse com uma mulher com o mesmo perfil da samaritana ou com um homem que hoje mesmo esteve endemoniado, naturalmente, minha atitude seria diferente. Talvez eu dissesse algo como: “Calma! Antes de ir pregar para as pessoas da cidade, você precisa mudar algumas coisas”, ou “Vamos fazer um curso de evangelismo antes”, ou “Vai que você fala alguma besteira”.
Mas Jesus permite que eles falem das maravilhas que Deus fez na vida deles. Jesus não os separa dos ambientes de onde eles vieram, mas os envia de volta para lá como luz!
Não quero com isso diminuir a importância do estudo, do preparo e do crescimento no entendimento das Escrituras. Simplesmente não quero impedir (assim como Jesus não impediu) a reação mais apropriada de alguém que O conhece: alegremente contar a outros!
Em João capítulo 17, Jesus está orando por Seus discípulos. Ele não ora apenas pelos 12, “mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por meio da palavra que eles falarem” (João 17.20b). Nessa oração Jesus diz algo essencial para o nosso tema:
“Já não estou no mundo, mas eles continuam no mundo, enquanto eu vou para junto de ti.
Pai santo, guarda-os em teu nome, que me deste, para que eles sejam um,
assim como nós somos um. Quando eu estava com eles, guardava-os no teu nome,
que me deste; eu os protegi e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição,
para que se cumprisse a Escritura. Mas agora vou para junto de ti e isto falo no mundo
para que eles tenham a minha alegria completa em si mesmos.
Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo,
como também eu não sou. Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal.
Eles não são do mundo, como também eu não sou. Santifica-os na verdade;
a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo,
também eu os enviei ao mundo.”
(João 17.11–18)
Jesus fala muito sobre o paradigma de que seus discípulos devem estar passando no mundo sem se contaminarem com ele. Jesus diz em Sua oração que protegia os discípulos em nome de Deus e que nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição. Mas agora que Jesus está para subir ao Pai Ele deixa dois pontos importantes:
“Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal” (versículo 15).
“Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (versículos 17 e 18).
Note que não é a separação do mundo que nos santifica, mas sim a verdade, ou seja a Palavra de Deus centrada, cumprida, revelada em Jesus!
O que podemos concluir, analisando tanto essas histórias como a oração de Jesus é que a separação do mundo não é a chave para a santidade. É possível não ser tirado do mundo e ainda assim estar guardado do mal. Isto é possível através da verdade: a Palavra de Deus. Foi por isso que Jesus orou. Ele quer que estejamos no mundo apesar de não pertencermos ao mundo (João 17.11–14).
E foi assim que a Igreja viveu!
No livro de Atos vemos uma igreja influente, participativa e que contava “com a simpatia de todo o povo” (Atos 2.47). Essa igreja, apesar da severa perseguição se expandiu rapidamente desde Jerusalém até a Judeia, até Samaria e até aos confins da Terra.
A igreja seguiu enxergando a cidade como Missão e crescia pela graça de Deus através da pregação, e pregação da Palavra de Deus.
Estima-se que em apenas 350 anos, a igreja cresceu de algumas centenas para mais de 33 milhões de pessoas. Há estudos que dizem que 350 anos depois de Cristo, mais de 50% da população do Império Romano era cristã.
“Esse rápido crescimento ocorreu, em grande parte, porque a fé cristã tinha um elevado padrão ético — que incluía auxílio aos menos favorecidos, a proibição do infanticídio, a condenação ao aborto, ao divórcio, ao incesto, à infidelidade conjugal e à poligamia”.¹
A maior parte do sucesso do cristianismo se dava no contexto urbano. A cidade era, e é até hoje, um campo missionário.
Quando a igreja enxerga a cidade como um campo missionário e prega o Evangelho de Cristo, vivendo uma vida centrada na Palavra, os seguidores de Jesus são sal e luz e se mantêm guardados do mal!
Que sigamos firmes, enxergando a cidade como Missão, até que chegue o dia onde estaremos em uma cidade santa, a Nova Jerusalém!
“E vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram,
e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu,
da parte de Deus, preparada como uma noiva enfeitada para o seu noivo.
Então ouvi uma voz forte que vinha do trono e dizia:
— Eis o tabernáculo de Deus com os seres humanos. Deus habitará com eles.
Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles e será o Deus deles.
E lhes enxugará dos olhos toda lágrima. E já não existirá mais morte, já não haverá luto,
nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.
E aquele que estava sentado no trono disse: — Eis que faço novas todas as coisas.
E acrescentou: — Escreva, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras. Disse-me ainda:
— Tudo está feito! Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim.
Eu, a quem tem sede, darei de graça da fonte da água da vida.”
(Apocalipse 21.1–6)
Editorial de Timoteo Monteiro

¹Ferreira, Franklin. A Igreja Cristã na História – Das Origens aos Dias Atuais, página 29.
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