A Espiritualidade Encarnada
- há 12 horas
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Uma fé que se torna vida prática
Desde a Criação, podemos ver a beleza e a grandeza de nosso Deus. Ele se revela ao estabelecer o povo de Israel, mesmo em meio à rebeldia contra os Seus mandamentos, expressando Seus atributos em cada ato de misericórdia, até culminar na grande aliança: a vinda e a morte de Jesus na cruz pelos nossos pecados. E, em meio a toda essa história, a partir do momento em que nos rendemos a Ele, nós também fazemos parte dela.
Quando a Fé Não Chega à Vida Prática
Mas a pergunta é: por que razão, diante de tamanhos milagres e maravilhas deste Deus que habita em nós, por vezes vivemos vidas tão rasas? Por que vemos tantas pessoas que professam a fé cristã, que frequentam os cultos regularmente e participam da vida da igreja, mas cujos lares, relacionamentos e atitudes revelam tão pouco da transformação produzida pelo Evangelho?
Uma Lição da Igreja Primitiva
Há alguns meses, tive o privilégio de estudar História da Igreja no seminário, uma das minhas matérias preferidas. Nela estudamos o desenvolvimento do cristianismo, desde o período dos apóstolos até os dias de hoje, e como a igreja se comportou, enfrentando heresias e perseguições.
Gostaria de falar especificamente sobre o período da igreja primitiva (entre 130–180 d.C.) em Roma, onde o cristianismo estava crescendo rapidamente e a religião cristã era vista como uma possível ameaça ao império, gerando perseguições e morte.
Em virtude disso, o Imperador Marco Aurélio pediu a seu tutor, Diogneto, para investigar e entender melhor como os cristãos viviam, relatando ao império seus hábitos e costumes. Assim, poderiam decidir se, de fato, eram considerados uma real ameaça. Diogneto, então, pediu que um jovem (que permanece em anonimato) fizesse essa pesquisa e lhe enviasse uma carta com relatos específicos deste grupo chamado “cristãos”.
Segue um trecho bem interessante dessa carta:
“Os cristãos não se distinguem dos demais homens, nem pela terra, nem pela língua, nem pelos costumes. Nem, em parte alguma, habitam cidades peculiares, nem usam alguma língua distinta, nem vivem uma vida de natureza singular. [...]
Habitando cidades Gregas e Bárbaras, conforme coube em sorte a cada um, e seguindo os usos e costumes das regiões, no vestuário, no regime alimentar e no resto da vida, revelam unanimemente uma maravilhosa e paradoxal constituição no seu regime de vida político-social. Habitam pátrias próprias, mas como peregrinos: participam de tudo, como cidadãos, e tudo sofrem como estrangeiros. Toda a terra estrangeira é para eles uma pátria e toda a pátria uma terra estrangeira. […]
Encontram-se na carne, mas não vivem segundo a carne. Moram na terra e são regidos pelo céu. Obedecem às leis estabelecidas e superam as leis com as próprias vidas. […]
Amam todos e por todos são perseguidos. Não são reconhecidos, mas são condenados à morte; são condenados à morte e ganham a vida. São pobres, mas enriquecem muita gente; de tudo carecem, mas em tudo abundam. São desonrados, e nas desonras são glorificados; injuriados, são também justificados. Insultados, bendizem; ultrajados, prestam as devidas honras. Fazendo o bem, são punidos como maus; fustigados, alegram-se, como se recebessem a vida. São hostilizados pelos Judeus como estrangeiros; são perseguidos pelos Gregos, e os que os odeiam não sabem dizer a causa do ódio”.
Pequenos Cristos: o Que Isso Revela Sobre Nós
Levando em consideração que o autor era um cidadão romano/pagão e não cristão, essa carta muito me confrontou. Ali, na fase embrionária da igreja, seus membros foram nomeados cristãos, o que significa pequenos Cristos. Não era possível vê-los e não conectá-los a Cristo, Aquele que andou em meio ao povo com Seu amor revolucionário.
O amor, a unidade, os relacionamentos e a alegria tinham o perfume de seu Líder, de Cristo. Eles estavam vivendo o Evangelho de forma real e profunda em seu dia a dia. Movidos pela fé, eles viviam uma vida prática transformada e cheia de Cristo.
Isso nos leva a pensar o quanto, de fato, estamos sendo pequenos Cristos. Muitas vezes professamos a fé cristã e falamos como cristãos. Mas não levamos o Evangelho para as minúcias da nossa vida quando ignoramos nossa grosseria ao falar com os familiares, na fofoca que tratamos como normal, nos filmes e séries com conteúdo contrário aos princípios bíblicos e até na nossa estagnação espiritual, diante da qual permanecemos indiferentes.
Um Convite à Espiritualidade Encarnada
Irmãos, devemos nos apresentar como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus como diz em Romanos 12.1 e 2. Será que temos de fato vivido como sacrifício vivo? O quanto estamos conformados às nossas práticas pecaminosas? E quão frios estamos ao ouvir o confrontar da Palavra de Deus?
Que Ele abra os nossos olhos para tudo que temos “colocado debaixo do tapete” e não tratado em nossos corações. Para que, no dia em que Ele vier nos buscar, possamos ouvir:
“Muito bom, servo bom e fiel, foste fiel no pouco,
sobre o muito te colocarei, entra no gozo do teu senhor”.
(Mateus 25.21)
Editorial de Gabi Chaves

Bibliografia:
Carta a Diogneto. In: Padres Apostólicos. Tradução de Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin. São Paulo: Paulus, 1995. (Especialmente capítulos V e VI)
Justo L. González. História Ilustrada do Cristianismo. São Paulo: Vida Nova, diversas edições.
Earle E. Cairns. O Cristianismo Através dos Séculos: Uma História da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova.
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