Enxergando Deus no Ordinário

Existe no mundo certa obsessão por inovação, por sair do óbvio, por fugir da rotina. A felicidade deve ser buscada em coisas diferentes, extraordinárias, novas. A monotonia e a repetição devem ser evitadas.


Mas a verdade é que a maior parte de nossas vidas acontece na rotina. E se somos chamados a viver todo o tempo Coram Deo (diante de Deus), será que não seria a rotina uma das principais maneiras de enxergar Deus?


Na beleza do comum


Precisamos treinar nossas mentes para conseguir enxergar a beleza e a singeleza que Deus deixou espalhadas nesse mundo. Vivemos em uma era que nos bombardeia e nos deixa viciados em estímulos. A todo momento precisamos de mais entretenimento, mais maneiras de estimular o cérebro. Infelizmente, isso compromete nossa capacidade de enxergar beleza nas coisas ordinárias.


Nosso Criador deixou marcas de Sua bondade e de Sua criatividade por todos os lados. Sentir o cheiro de café fresquinho de manhã cedo, andar de bicicleta num dia ensolarado, ouvir uma música com uma linda melodia, apreciar um pôr do sol cheio de cores, aproveitar uma noite de jogos com os amigos. Todas essas são coisas ordinárias, mas que nos lembram da bondade de um Deus que, não só encheu o mundo de beleza e sabor, mas também fez questão de nos dar sentidos para que pudéssemos experienciá-lo e nos alegrarmos com Ele.


No trabalho


No relato da criação, podemos ver não apenas um Deus que trabalha, mas também que se alegra ao terminar o Seu trabalho.


“Deus viu tudo o que havia feito, e eis que era muito bom.”

(Gênesis 1.31)


Nas nossas rotinas, somos diariamente encarregados de uma série de trabalhos. E isso não é uma maldição. O trabalho existia antes mesmo do pecado entrar no mundo. Nosso Deus é um Deus que trabalha. E somos chamados por Ele a realizarmos nosso serviço com grande dedicação e comprometimento. Você consegue recordar agora a excelente sensação de concluir um trabalho árduo? O sentimento de missão cumprida? Certamente sentimos isso porque fomos criados à imagem de Deus. Nós nos alegramos por concluir trabalhos bem feitos porque Deus também Se alegra, e essa é uma marca dEle em nós que podemos ver em nossas rotinas. Podemos, desse modo, enxergar marcas do Criador em nós na realização diária de nosso trabalho. Sempre que fazemos ou nos deparamos com um trabalho excelente, podemos reconhecer nele vislumbres de um Criador criativo, zeloso e dedicado.


Nos relacionamentos


Uma maneira de enxergar Deus no ordinário é no amor e na bondade demonstrados pelas pessoas, especialmente pelos irmãos em Cristo. Por mais que sejamos imperfeitos e falhos, o amor que demonstramos e que recebemos são lembretes do amor do nosso Criador.


"Nisto todos conhecerão que vocês são meus discípulos:

se tiverem amor uns aos outros.”

(João 13.35)


Em cada abraço ou palavra de conforto recebidos em momentos de angústia, Deus usa Seus filhos para expressarem Seu amor no mundo. Cada conselho bem dado, cada ato de bondade, cada olhar de compaixão são marcas do próprio Deus expressas por Seus filhos vivendo em um mundo caído. O apóstolo Paulo ecoa ideia semelhante em sua carta aos filipenses.


"Façam tudo sem murmurações nem discussões, para que sejam irrepreensíveis e puros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta,

na qual vocês brilham como luzeiros no mundo."

(Filipenses 2.14, 15)


Quando fazemos algo tão simples e ordinário quanto evitar murmurações e discussões, estamos sendo como luzeiros no mundo, luz na escuridão. Pequenos atos de mansidão e bondade são maneiras de fazer o mundo enxergar algo do nosso Deus no dia a dia.


Conclusão


Concluo essa reflexão convidando o leitor para intencionalmente buscar, como hábito, reconhecer e se deleitar em Deus em cada parte de sua vida. Nas coisas comuns do mundo, no trabalho, nos relacionamentos. Que possamos não apenas ter corações sensíveis para enxergá-lO, mas também ser instrumentos para mostrar ao mundo a bondade e o amor de nosso Deus. Que, em cada dia comum, possamos nos alegrar nEle e mostrar ao mundo a glória de Deus!


Editorial de Fernando Saraiva