Questões Cruciais: A Oração Muda as Coisas?

Não seria estranho se a pergunta sugerida no título despertasse em nós a sensação de que há algo de errado com ela, sobretudo, porque compreendemos que em uma vida cristã saudável não há espaço para questionamentos como esse, que expressam incertezas, inconstâncias ou flutuação de sentimentos, que poderiam levar, até mesmo, à impressão de incredulidade.


O problema é que, durante a peregrinação neste mundo, todo verdadeiro cristão enfrentará diversos desafios, grandes obstáculos e inúmeras ciladas, nem sempre previsíveis, mas que provocarão confusão, engano, indignação, cansaço e, certamente, uma enxurrada de dúvidas que, inevitavelmente, o levará a sofrer pequenos e grandes abalos em sua fé.


Parece, então, que, quando consideramos essas circunstâncias, o questionamento trazido no título passa a carregar, junto de si, um justo motivo, sobretudo, porque num momento de instabilidade da nossa fé, poderíamos chegar à conclusão de que, se a própria Escritura nos diz que Deus conhece todas as coisas (1 João 3.20), se Ele já sabe de tudo o que precisamos, antes mesmo de Lhe pedirmos (Mateus 6.8), e que mesmo antes da fundação do mundo, Ele também já sabia tudo que iria acontecer em nossas vidas (Salmo 139.16), que proveito teríamos de contar para o Senhor aquilo que Ele já sabe? Por que deveríamos orar se todas as coisas já foram predeterminadas? Será mesmo que a oração teria, de fato, algum sentido ou mudaria alguma coisa?


São dúvidas perigosas que podem levar a graves distorções da Palavra de Deus e que, por isso, necessitam de respostas que estejam em harmonia com os ensinos bíblicos.


Infelizmente, a oração continua sendo um dos deveres sagrados mais negligenciados, visto, até mesmo, nas mais sérias comunidades cristãs. Isso se deve, em grande medida, porque não há uma compreensão exata sobre o seu real significado. A ideia que atualmente prevalece reduz Deus à função de um simples mordomo, que, ao ressoar de um sininho, sustentado por duas mãozinhas unidas, deve atender, sem demora, a caprichos, realizar vontades e cumprir, imediatamente, as mais variadas ordens e exigências dos desejos humanos. O problema é quando a resposta não vem da forma como se imagina ou deseja, e é exatamente aí que a fé começa a trepidar, a confiança se divide, o louvor emudece, a adoração fica suspensa, a esperança dá lugar ao desespero e a tentação de trocar o Pão da vida por um prato de lentilhas se torna ainda mais sedutora.


Deus não pode ser manipulado pelos nossos desejos e vontades. Ele é imutável e nenhuma oração, por mais fervorosa que seja, tem o poder de influenciar ou mudar a vontade do Criador. Ele determinou que certas coisas irão acontecer, e não há o que possamos fazer para mudar isso. No entanto, é através da oração do Seu povo que Deus, em Sua soberania, intervém nas circunstâncias. Abraão intercedeu em favor do seu sobrinho Ló, e Deus o preservou em meio à destruição de Sodoma e Gomorra (Gênesis 18.22, 23); Isaque orou e Rebeca, sua esposa estéril, após vinte anos de casada, concebeu (Gênesis 25.21); o povo de Deus gemeu durante quatrocentos anos de escravidão no Egito, mas não deixou de suplicar por libertação e Ele, milagrosamente, os tirou de lá (Êxodo 12.31) e tantos outros exemplos.


É nosso dever e privilégio recorrer ao Senhor em oração porque Ele a instituiu para Sua glória, mas também para o nosso bem. Mais do que um simples ato, a oração é uma atitude, uma atitude de entrarmos na presença do Senhor e nos derramar completamente, nos humilhar e, em arrependimento e submissão, adorá-lO, honrá-lO e, sobretudo, agradecê-lO, ao mesmo tempo em que compartilhamos com Ele todas as nossas necessidades, nossas fraquezas, dúvidas, conflitos, angústias, tentações, enfim, confessamos a Ele toda a nossa indignidade, insignificância e incapacidade diante de todas as coisas, mostrando-Lhe que, por isso, dependemos única e exclusivamente da Sua graça e misericórdia. Isso deixa o agir nas mãos do Senhor que, certamente, responderá, mas da forma como melhor Lhe parecer, o que, muitas vezes, pode ser diferente ou contrário do que seria conveniente à nossa carne.


Foi assim com o apóstolo Paulo, quando suplicou, por três vezes, para que o Senhor retirasse dele o espinho que tinha na carne. O espinho, no entanto, não foi removido, mas a sua oração mudou as coisas, porquanto, ele compreendeu que a Graça de Deus era suficiente para lhe sustentar e dar forças para que suportasse, não somente o espinho, mas tudo o que viria a enfrentar em seu ministério (2 Coríntios 12.7–10). A oração de Paulo não mudou a sua situação, mas mudou o seu coração. E é isso que a oração faz também conosco, ela muda constantemente a incredulidade e dureza do nosso coração, para nos fazer reconhecer que o benefício que ansiamos em nossas súplicas não está no suprimento das nossas necessidades ou na concessão dos nossos desejos, mas na realização da vontade do Senhor de nos tornar ainda mais parecidos com Seu Filho amado. Essa é a melhor resposta e o maior bem que podemos receber do Senhor (Romanos 8.28, 29), quando, em oração, recorremos a Ele.


Se, por um lado, podemos, em nossas orações, ser audaciosos e determinados em, inicialmente, pedir algo ao Senhor, devemos também ter a coragem de, ao final, sempre acrescentarmos: “Contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua” (Lucas 22.42).


Tenho, por fim, absoluta convicção de que o que foi escrito aqui não representa tudo o que está envolvido na oração. O propósito foi tão somente destacar que, quando, em oração, submetemos a nossa vontade à vontade de Deus, algo sempre mudará em nossas vidas, que pode não ser exatamente o que esperamos, mas sempre será o que precisamos. Talvez isso não alivie a nossa dor, mas nos dará esperança ao nos trazer direção, transformação, descanso, paz de espírito e o desejo ainda mais forte de continuarmos suplicando todos os dias: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lucas 11.1).


Editorial de Walter Feliciano