Amizades Bíblicas: Ele é meu amigo, e é o único que eu tenho…

No primeiro filme da série Toy Story, Buzz Lightyear aparece como o “vilão”, roubando os amigos de Woody. Na verdade, Buzz é um ótimo amigo, mas Woody, tomado de inveja por perder a preferência que tinha com os brinquedos, não o vê dessa forma. Por isso, Woody começa a planejar uma forma de tirar Buzz de casa para ter seus amigos — e sua posição — de volta. Para sua surpresa, ao tirar Buzz de casa, Woody perde seus amigos por causa da forma como agiu. Agora ele não tem mais os antigos amigos e nem Buzz.


Quando essa “ficha cai”, Woody sai para resgatar Buzz, mas precisa ir sozinho porque seus antigos amigos já não confiam mais nele. Mesmo só, Woody vai. Num determinado momento dessa jornada de resgate, Woody encontra outros brinquedos, e pede a ajuda deles para resgatar Buzz. É nesse momento que Woody diz: “Ele é meu amigo, e é o único que eu tenho…”.


Essa pequena frase nos dá algumas coisas para pensar. Por que é tão difícil fazer amigos? Por que amizades se desfazem tão facilmente às vezes? Por que é tão comum vermos pessoas, inclusive cristãos, vivendo vidas solitárias? Os motivos são vários, mas quero destacar cinco que eu creio serem os principais:


1. Não somos bons amigos


Nós atraímos o tipo de amigo que somos, porque naturalmente buscamos nos aproximar de pessoas com as mesmas prioridades e preferências que nós temos. Um mau amigo se aproxima de pessoas pensando no que elas podem dar, e irá usá-las para seu benefício ao invés de servi-las. Um mau amigo não dedicará tempo às pessoas, porque “tem coisas mais importantes para fazer”. E se somos assim, atrairemos pessoas egoístas, que nos olham como alguém que pode lhes dar algo e que não atrapalha seus planos. Salomão exorta seu filho a não andar com os perversos (Provérbios 1.15). Se você é o perverso, pessoas sábias não andarão ao seu lado.


Woody parecia um bom amigo, mas na realidade ele só gostava dos brinquedos que davam o que ele queria — respeito, reconhecimento, exclusividade. Quando alguém aparece para ameaçar isso, ele reage, e fica evidente a fragilidade das amizades baseadas nos princípios errados. Foi só quando ele buscou ser um bom amigo para Buzz que realmente desfrutou de uma verdadeira amizade.


Se você quer boas amizades, o primeiro passo é buscar ser um bom amigo. Nos dois primeiros editoriais da série falamos bastante sobre o que é ser um bom amigo. Em resumo, a ideia é amar o próximo e se esforçar para levá-lo para perto de Jesus. Quando o que une duas pessoas é Jesus, e não desejos pessoais ou preferências, a ligação é forte demais para ser desfeita por causa de “pequenas” falhas. E isso nos leva ao segundo ponto:


2. Buscamos por preferências e desejos pessoais


Nós nos ligamos às pessoas que apresentam coisas em comum, e esquecemos de que o que realmente precisa ser em comum é o amor por Jesus. Preferências facilitam o desenvolvimento de amizades, mas não podem ser o que direciona, porque preferências são coisas frágeis, que muitas vezes oscilam. Se baseamos nossas amizades em um fundamento que oscila, num momento teremos muitos amigos, e num outro não teremos ninguém.


Além disso, buscar por preferências revela um coração orgulhoso, que não quer sair de sua zona de conforto. Queremos pessoas iguais a nós, para não termos que nos adaptar ou servir. E como já dissemos antes, se nossos relacionamentos são sempre voltados a nós mesmos, assim que as pessoas deixam de nos dar o que queremos, o relacionamento não existe mais.


3. Não dedicamos tempo às pessoas


Reforçando algo que já falamos no segundo editorial da série, nós temos dificuldades para fazer boas amizades porque não dedicamos tempo às pessoas. É impossível um relacionamento se aprofundar sem investir tempo. Precisamos de tempo para conhecer bem as pessoas e para poder servir pessoas.


Uma coisa que eu tenho observado ao longo dos anos é que as pessoas que reclamam de não ter amigos normalmente são as pessoas que se isolam e não buscam investir tempo com pessoas. Já ouvi várias vezes algo como: “Ajude meu filho a se enturmar…”, “O pessoal é fechado, não dá pra entrar…”, “Não consigo me aproximar das pessoas…”. A pergunta que eu costumo fazer, em seguida, é: “O que você tem feito para se relacionar? Você participa das reuniões e programações? Você está investindo no relacionamento também, ou está sempre esperando alguém chegar e te convidar para algo?” Se você não está perto de pessoas, você não se relacionará com elas.


4. Não somos intencionais


Um grande complicador para o desenvolvimento de amizades é a superficialidade. Não é incomum encontrar pessoas que conversam com todos, mas que não tem relacionamentos maduros e profundos com ninguém. Naturalmente, temos a tendência de conversar sobre coisas fúteis, simples, e não nos aprofundamos nos assuntos importantes — principalmente em assuntos relacionados à vida cristã. Nós não somos intencionais em nossos relacionamentos.


Fale sobre a Bíblia. Compartilhe seu devocional. Sirva no contexto da comunidade. Evangelizem juntos, façam viagens missionárias. Crie oportunidades para estar junto com pessoas, em ambientes que favoreçam conversas saudáveis. Direcione as conversas para assuntos que realmente valem a pena. E um aspecto interessante aqui, relacionado ao nosso primeiro ponto, se você for intencional em criar momentos centrados em Deus, as pessoas que serão atraídas a isso também serão pessoas que amam a Deus — e não pessoas que buscam apenas suas preferências. Se temos duas pessoas que amam a Deus servindo a Deus juntas, amizades florescerão. Não fique jogando tempo fora, seja intencional e faça bons amigos.


5. Não estamos dispostos a nos abrir


A profundidade de um relacionamento é proporcional à profundidade das conversas que você tem com a pessoa. Portanto, não tenha apenas conversas superficiais. Compartilhe o que tem aprendido em suas devocionais. Confesse seus pecados e peça oração. Isso exige de nós muita humildade, porque não queremos expor nossos corações podres e não queremos que os outros nos exortem. Isso, no entanto, é uma amizade verdadeira.


Não tenha medo de fazer perguntas — não só perguntas sobre preferências, mas perguntas sérias: “Como tem sido sua vida de pureza? Com que pecado você tem lutado? Como eu posso orar por você especificamente? Qual foi a última lição que você aprendeu com Deus?” E comece a compartilhar as suas respostas para essas perguntas, mesmo que o outro não pergunte. Estabeleça o padrão para as conversas, e desfrute da bênção que é ter amigos caminhando com você e orando por você.


São incontáveis as barreiras e desculpas que podemos criar para não construir boas amizades. De fato, o caminho não é fácil. Desenvolver boas amizades exige bastante de nós. Mas vivermos sozinhos é muito mais difícil. E Deus nos dá diretrizes e padrões para desenvolvermos amizades saudáveis.


Editorial de Gustavo Santos