As Bem-aventuranças: Os Pacificadores

Nessa série de editoriais, temos olhado de maneira mais profunda as Bem-aventuranças, descritas no Sermão do Monte. Em particular, já vimos que o termo “bem-aventurados” também pode ser traduzido como “felizes”; assim, cada bem-aventurança segue a mesma estrutura: ela apresenta uma característica e explica o motivo pelo qual a pessoa que a possui é feliz, conectando essa característica com uma promessa baseada no Evangelho. E é justamente por isso que devemos encarar esse texto como uma descrição do cidadão do Reino, como alguém que foi regenerado por Deus e passou a seguir a Cristo. Essa felicidade é, então, um resultado direto das Boas-novas, da ação transformadora do Espírito em nossos corações. Ela não pode ser vista simplesmente como uma emoção, mas sim como um bem-estar que é concedido por Deus, e que só pertence àqueles que são Seus. Mas ao mesmo tempo que esse texto nos mostra as bênçãos associadas à obra de Deus em nós, ele também nos chama à prática ao nos apresentar um perfeito retrato do cristão, lembrando de que quem efetua o crescimento de cada uma dessas características é o próprio Deus. Hoje vamos estudar um pouco mais sobre a sétima bem-aventurança (veja Mateus 5.9, reproduzido nos títulos abaixo), tentando entender seu significado, e buscando aplicações para a nossa vida diária.


“Bem-aventurados os pacificadores…”


Superficialmente, paz (definindo simplesmente como a ausência de conflito) é algo que todos os homens buscam de alguma forma, com uma exceção: quando nossos interesses estão em jogo. Neste caso, o mundo prega que felicidade está em se obter tudo aquilo que se deseja, mesmo que conflito esteja envolvido; nesse contexto, felizes são aqueles que superam seus adversários e fazem valer os seus direitos a todo custo. Mas note que essa bem-aventurança vai justamente na contramão desse pensamento; o cristão é alguém que não reivindica seus direitos (veja o editorial em Mateus 5.5), e que se empenha em trazer paz em meio a conflitos. No Novo Testamento, essa característica é ressaltada principalmente no contexto de relacionamentos na igreja. Note como Tiago contrasta a inveja e o egoísmo, relacionados com a sabedoria mundana, e as características da sabedoria celestial:


“Contudo, se vocês abrigam no coração inveja amarga e ambição egoísta,

não se gloriem disso nem neguem a verdade.

Esse tipo de "sabedoria" não vem dos céus, mas é terrena;

não é espiritual, mas é demoníaca.

Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males.

Mas a sabedoria que vem do alto é antes de tudo pura;

depois, pacífica, amável, compreensiva,

cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sincera.

O fruto da justiça semeia-se em paz para os pacificadores.”

(Tiago 3.14–18)


Essa passagem se situa justamente num conceito em que conflitos começavam a destruir a união da igreja local (veja os capítulos 3 e 4 da mesma carta, que são aplicados principalmente no contexto de liderança). Ao recomendar a sabedoria celeste, Tiago deixa claro que aquele que promove a paz colhe o fruto da justiça em paz, em contraste com aqueles que abrigam inveja e ambição egoísta e colhem confusão. O cristão deve ser um pacificador, pois isso faz parte do seu caráter (como definido no Sermão do Monte), e a própria união da igreja local depende de como refletimos essa caraterística nos nossos relacionamentos.


Aqui, é importante ressaltarmos que o conceito de paz apresentado na Bíblia é muito mais amplo do que ausência de conflito. Isso é exemplificado de maneira perfeita em Romanos 5.1–11: nossa paz com Deus envolve não apenas uma simples resolução de conflito, mas uma restauração completa do relacionamento, mesmo que a outra parte não esteja disposta a entrar em acordo. Essa paz teve um alto custo, mas resultou na promessa de alegria eterna e num relacionamento sem manchas com Deus e com os nossos irmãos. Essa é a paz que o cristão tem como modelo, e que deve guiar seus relacionamentos.


“…, pois serão chamados filhos de Deus.”


O cristão é feliz porque é chamado filho de Deus — essa promessa de filiação é que explica a razão dessa felicidade. De maneira geral, filhos sempre carregam uma mistura das características dos pais. Do mesmo modo, os filhos de Deus compartilham várias características do caráter divino, que são chamados a imitar. Nosso Deus é o Senhor da Paz (2 Tessalonicenses 3.6), e Seus filhos também devem refletir essa paz, especialmente quando pensamos em conflitos interpessoais (Mateus 5.44–48). Ao sermos pacificadores, mostramos ao mundo quem é o nosso Pai; isso nos dá a oportunidade de proclamar que apenas no sacrifício de Cristo temos paz verdadeira com Deus, e que essa é a fonte de paz em todos os nossos relacionamentos.


Mas note que esse termo é também a descrição do nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é o Filho de Deus, que é a imagem perfeita do Pai e que realizou todas as obras que estavam em Seu coração (João 14.9, 10; Colossenses 1.15). Nossa paz só foi obtida por meio do Seu sacrifício perfeito na cruz do Calvário (Isaías 53.5), o único caminho para a reconciliação completa entre Deus e os homens. Cristo é o Grande Pacificador, o Príncipe da Paz (Isaías 9.6) que nos foi dado por iniciativa do próprio Deus trino em Seu plano perfeito de nos salvar. Dessa maneira, seremos chamados filhos de Deus ao refletirmos o caráter do nosso Pai Celestial, assim como Jesus fez. E assim como nosso Irmão, um dia voltaremos para casa para recebermos a herança reservada nos céus para nós.


Um modelo bíblico de pacificação


Tendo em mente a pessoa de Cristo e a Sua obra, podemos pensar em maneiras práticas de promover a paz em nossos relacionamentos. Como mencionado anteriormente, o Evangelho nos dá um modelo perfeito de pacificação: Deus, mesmo sendo a parte ofendida, toma a iniciativa na restauração do relacionamento, pagando o preço necessário para a paz, nos tornando alvos da Sua graça. Baseado nisso, Ken Sande¹ propõe quatro passos para a resolução de conflitos. Se possível, não olhe para esses passos como uma receita de bolo; lembre-se que somente Deus pode transformar nosso coração para sermos mais e mais parecidos com Cristo, e só podemos resolver conflitos por meio da Sua graça:


1. Foque em glorificar a Deus (1 Coríntios 10.31): Devemos sempre pensar em como podemos agradar e honrar a Deus nessa situação, e não focar naquilo que queremos. Lembre-se como a pacificação contrasta com a ambição egoísta em Tiago 3.


2. Tire a viga do seu olho (Mateus 7.5): É importante pensar em como podemos demonstrar a obra de Jesus em nós por meio de nos responsabilizarmos pela nossa contribuição no conflito. Esquadrinhamento do coração e reconhecimento de pecados é uma parte essencial da vida cristã.


3. Restaure gentilmente (Gálatas 6.1): Devemos sempre nos perguntar como podemos demonstrar o perdão de Deus e encorajar uma solução razoável para o conflito. Lembre-se de que a união do Corpo de Cristo e o testemunho do caráter de Deus estão em jogo, mas que devemos lidar com nossos irmãos da mesma maneira com que Deus lida conosco.


4. Vá e se reconcilie (Mateus 5.24): Esse é o passo final, a conclusão do conflito. Aqui, também devemos lembrar que nossa reconciliação deve seguir o padrão de Deus, firmando o compromisso de perdoar verdadeiramente, sem trazer à tona o conflito em situações futuras (que é um sinal de amargura).


Editorial de Petrônio Nogueira


¹ “O Pacificador: Como solucionar conflitos”, Ken Sande, Editora CPAD.