Atributos de Deus: Deus é Misericordioso

Em um reino muito distante, houve um rei que decretou uma lei severa contra roubo e furto, cuja pena era ter uma das mãos decepadas. Após esta lei ser decretada o número de roubos e furtos caíram drasticamente.


Certo dia, um dos servos fiéis do rei veio a sua presença informando que um homem tinha sido pego em flagrante furtando. O rei disse sem pestanejar: “a lei está aí para ser cumprida!”. Mas o servo continuou, "O homem é seu filho, ó rei”.


O rei, caindo em si, pôs-se a pensar como poderia poupar seu filho de tal sentença. Chegado o dia do julgamento, todos atônitos aguardavam o que o rei faria. Quando lhe foi dada a palavra ele disse: “Se é uma das mãos que a lei exige, uma mão a lei terá. Podem cortar a minha, mas deixem meu filho”.


A ilustração acima mostra um rei que exerceu misericórdia por amor a seu filho. Se você é pai ou mãe, é fácil entender a decisão do rei em trocar de lugar com seu filho para cumprir a lei. Certamente ele não tomaria a mesma decisão se o criminoso fosse alguma outra pessoa que ele não tivesse nenhum vínculo de afeto. Por mais nobre que seja a decisão do rei, o que o motivou foi seu amor por seu filho e não uma essência misericordiosa em seu caráter.


Definição de Misericórdia


Misericórdia é a bondade ou amor de Deus mostrada para aqueles que estão em sofrimento ou miséria, independentemente de seus méritos.¹


A palavra hesed (חסד), no Antigo Testamento, salienta a fidelidade de Deus a despeito da infidelidade do homem e, portanto, enfatiza piedade. A palavra grega no Novo Testamento, eleos (ἔλεος), também inclui a ideia de piedade e simpatia e pode ser traduzida como “amor bondoso”.²

“Cheguemo-nos, pois, com confiança ao trono da graça,

para que recebamos misericórdia e achemos graça,

a fim de sermos socorridos no momento oportuno.”

(Hebreus 4.16 – ênfase do autor)


Misericórdia e Graça


É comum acharmos que graça e misericórdia são palavras sinônimas. No entanto, mesmo sendo conceitos próximos, elas são diferentes. Misericórdia é ser poupado de uma punição merecida, enquanto graça é receber um favor imerecido. Em suma, Deus é misericordioso em nos poupar de Sua ira que merecemos, e gracioso por nos conceder salvação e vida eterna, que não merecemos.


Como vimos no editorial anterior (Deus é Paciente), misericórdia também é um atributo comunicável, ou seja, é um dos atributos que Ele deseja que Seus filhos desenvolvam. Jesus enfatizou a misericórdia no sermão da montanha: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mateus 5.7).


Misericórdia x Justiça


Em nossa estória, o rei foi misericordioso com seu filho não imputando a pena merecida sobre ele. Porém, se o rei somente “perdoasse” a transgressão, ele seria um rei injusto por não satisfazer a lei. Então, para satisfazê-la, o rei se colocou no lugar do filho.


“...SENHOR, SENHOR Deus compassivo,

clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade;

que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado, ainda que não inocenta o culpado...”

(Êxodo 34.6b, 7a – ênfase do autor)


Como Deus perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado, e ao mesmo tempo não inocenta o culpado?


Na criação, Deus havia estabelecido a lei (não comer do fruto) e a pena (certamente morrerás), (Gênesis 2.16, 17). Ao desobedecer a ordem expressa de Deus, Adão colocou a humanidade debaixo da condenação do pecado. Agora, há uma pena de morte sobre todo homem (Romanos 5.12). Deus não pode, simplesmente, ignorar o pecado e perdoar o homem, pois Ele também é Justo.


Porém, aprouve a Ele tomar a iniciativa de providenciar um substituto, Aquele que levaria sobre Si a pena pelo pecado. Por isso, Deus entregou a Si mesmo, a segunda pessoa da Trindade, para se tornar carne e morrer a nossa morte — a saber, Jesus Cristo (Romanos 5.15)!


Em Sua infinita misericórdia, Deus estabeleceu o meio e o preço da redenção. Na cruz, Jesus levou sobre Si a Ira contra o pecado, que deveria ser derramada sobre nós. Toda nossa culpa foi depositada sobre Ele. Jesus bebeu até a última gota do cálice da ira de Deus por amor a nós, e podemos ter acesso a essa misericórdia se respondermos ao chamado de Jesus com arrependimento e fé.


Conclusão


No caso de nossa ilustração, o rei se colocou no lugar de seu filho para poupá-lo. É até compreensivo aos olhos humanos um pai se compadecer de um filho, mas no caso do Evangelho, Deus entregou seu único Filho para receber a mais dura pena e salvar pecadores miseráveis como eu e você.


“Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores.”

(Romanos 5.8)


Somos como o filho daquele rei: culpados! Há uma pena de morte sobre nós (Romanos 3.23). Mas há esperança! Cristo morreu a nossa morte. Uma vez salvos no Senhor, Ele nos chama a desenvolver Seus atributos comunicáveis.


A parábola do credor incompassivo de Mateus 18.23–35, exemplifica bem a dinâmica da misericórdia. Um homem foi perdoado de uma dívida impagável, quando um outro que lhe devia uma dívida menor (não pequena, mas pagável), ele se recusou a perdoá-lo e o lançou na prisão.


Fazemos exatamente isso quando não perdoamos. Deus nos poupou de uma pena eterna e devemos exercer misericórdia para aqueles que nos ofendem ou nos causam algum dano. Deus nos chama a revelar Sua misericórdia ao mundo exercendo esse atributo uns para com os outros.

“Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente,

caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem.

Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós.”

(Colossenses 3.13)


Ter misericórdia não é ser conivente ou omisso com relação ao pecado, mas tratar a outra parte em amor não levando em conta o dano causado, visando sempre a restauração. Sei que não é fácil, somente em Jesus somos capazes de crescer nesse atributo.


Editorial de Dimas Rodrigo



[1] Buswell, A systematic Theology of the Christian Religion, 72.

[2] Paul Lens, Manual de Teologia Moody, 218.