Cristianismo fitness

Fitness é uma das palavras do momento. Todos querem ser fit. A quantidade de academias vem crescendo vertiginosamente, bem como a comercialização de alimentos sem glúten, sem lactose, sem gorduras, sem isso e sem aquilo. É de se admirar o empenho que pessoas — inclusive cristãos — colocam em “construir” um corpo saudável. Ao mesmo tempo, é de se admirar a quantidade de cristãos que negligenciam suas vidas espirituais, deixando de se alimentar e exercitar espiritualmente de forma saudável. Essa “dieta” no cristianismo é extremamente danosa — não só ao indivíduo, mas à igreja como um todo. Cristãos que não se alimentam e não se exercitam começam a experimentar desânimo, fraqueza para lutar contra o pecado, problemas de relacionamentos, e muitas outras coisas que afetam inclusive as pessoas ao seu redor.


Porém, se alimentar-se e exercitar-se são coisas tão importantes, por que falhamos tanto? R. C. Sproul explica dolorosamente bem: “Aqui está o verdadeiro problema de nossa negligência. Nós falhamos em nosso dever de estudar a Palavra de Deus não tanto porque é difícil de entender, não tanto porque é monótona e chata, mas porque é trabalhoso. Nosso problema não é falta de inteligência ou falta de paixão. Nosso problema é que somos preguiçosos.”¹ Por mais que tentemos negar, a nossa preguiça é o que nos impede. Mesmo para as pessoas que têm rotinas super corridas, com trabalho, faculdade e filhos, isso se mostra verdadeiro. Deus jamais imporia sobre nós uma rotina que nos impedisse de buscar um relacionamento com Ele. Portanto, sempre teremos tempo — uns mais, outros menos, mas todos temos tempo. O ponto é se vamos usar o tempo que temos de forma correta. Então, a pergunta que temos é: como sairmos desse marasmo espiritual para uma vida cristã saudável e abundante?


“Porque Esdras tinha [1] disposto o coração para [2] buscar a Lei do SENHOR,

e para a [3] cumprir, e para [4] ensinar em Israel os seus estatutos

e os seus juízos” (ênfase pessoal).

(Esdras 7.10)



Dispor o coração

Esdras nos mostra que tudo começa com a disposição do nosso coração. Esse primeiro passo é o ponto de partida, uma vez que o nosso problema é muito mais a negligência e a preguiça do que a dificuldade em entendermos a Palavra. Antes de ler, estudar, praticar e ensinar, precisamos nos dispor. Essa “dieta espiritual” que muitos cristãos têm vivido revela algo muito mais profundo do que a superfície parece mostrar. A falta de leitura da Palavra está ligada à falta de confiança de que ela pode transformar, o que consequentemente está ligado à falta de confiança no poder de Deus. Cristãos que não leem a Bíblia, que não oram, que não memorizam versículos estão dizendo — talvez não com suas palavras, mas com suas atitudes — que eles não precisam de Deus. Esdras se dispôs porque creu que a Palavra de Deus era suficiente e poderosa. Ele entendeu que precisava de Deus. Ele entendeu que não havia outra saída.


Buscar a Lei do Senhor

Através da Bíblia, Deus se revela a nós. A forma como Deus fala conosco hoje é por meio das Escrituras. A mensagem do Evangelho é proclamada nas páginas das Escrituras. Os mandamentos do Senhor são descritos na sua Palavra. Por isso, se quisermos conhecer a Deus e crescermos à semelhança do seu Filho, precisamos conhecer intimamente a Bíblia. O apóstolo Paulo diz a Timóteo que as Sagradas Escrituras são suficientes para lhe dar sabedoria para receber a salvação que vem pela fé em Cristo Jesus (2 Timóteo 3.14–17). O escritor Donald Whitney, em seu livro sobre Disciplinas Espirituais, afirma que “Nenhum fator é mais influente em nos tornar mais parecidos com o Filho de Deus do que o Espírito de Deus trabalhando através da Palavra de Deus. Se você quer ser mudado, se você quer se tornar mais semelhante a Jesus Cristo, discipline-se a ler a Bíblia.”²


“Ok! Eu preciso ler a Bíblia. Entendi essa parte. Mas com que frequência?” O pregador britânico John Blanchard responde de forma fantástica: “Com que frequência enfrentamos problemas, tentações e pressões? Todo dia! Então, quantas vezes precisamos de instrução, orientação e maior incentivo? Todo dia! Para captar todas essas necessidades sentidas em uma questão ainda maior, com que frequência precisamos ver o rosto de Deus, ouvir sua voz, sentir seu toque, conhecer seu poder? A resposta a todas estas perguntas é a mesma: todos os dias.”³


Cumprir a Lei do Senhor

O livro de Tiago trata sobre isso de forma especial e clara: “Assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta” (Tiago 2.26; ver também 1.19–27; 2.14–25). A compreensão correta da Palavra de Deus sempre nos moverá à obediência. Deus não nos deixou a Bíblia somente para informação, mas principalmente para a nossa transformação. Ele se revela a nós para que, ao conhecermos o nosso Deus, busquemos ser como Ele é. Ele revela seu plano para nós para que, ao entendermos o Seu e o nosso propósito, vivamos de acordo com as boas obras que Ele preparou para nós.


Ensinar a Lei do Senhor

“Mas ensinar não é só para os pastores?” Não. A Palavra de Deus nos chama ao aconselhamento mútuo (1 Tessalonicenses 5.11), a fazer discípulos (Mateus 28.18–20), à exortação mútua (Hebreus 3.13), e a diversas outras práticas que envolvem ensino. Pais são chamados a ensinar (Efésios 6.4). Mulheres mais velhas são chamadas a ensinar as mais novas (Tito 2.3–5). Como seremos capazes de ensinar de acordo com a Palavra sem termos conhecimento da Palavra? A resposta óbvia é: não seremos. A seriedade aqui está no fato de que Deus nos ordena tais coisas. Portanto, não cumprirmos com essa função é desobediência ao Senhor.


O final da história de Esdras mostra o retorno a Jerusalém para a reconstrução da cidade. Porém, muito mais do que a volta para uma cidade, era a volta do povo para o seu Deus. De fato, estudar a Bíblia é algo trabalhoso. No entanto, não podemos focar somente no esforço. Devemos focar no que ganhamos ao nos esforçar — o próprio Cristo! Estudar a Palavra a fundo nos leva a conhecer e desfrutar do nosso Salvador de forma mais profunda e íntima, a experimentar o poder de Deus transformando nossos corações, a termos segurança de que a vida eterna nos aguarda. O prêmio é infinitamente maior do que o custo. Estudar a Palavra é um meio, e não um fim. É o meio pelo qual conhecemos o nosso Salvador.


A pergunta que fica é: estamos dispostos?


Editorial de Gustavo Santos



¹ SPROUL, R. C., Knowing Scripture, Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1977, p. 17.

² WHITNEY, Spiritual Disciplines for the Christian Life, p. 26.

³ BLANCHARD, John, How to Enjoy Your Bible, Colchester, England: Evangelical Press, 1984, p. 104.


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