Dando o Próximo Passo no Uso do Tempo

Tempo é um equalizador: não importa onde você viva ou a sua condição social, o número de horas disponíveis em um dia não muda. Mas você já parou para pensar o quanto desse tempo é realmente aproveitado na sua rotina? Talvez você, como eu, tenha tido dias em que 24 horas não pareciam suficientes para completar todas as nossas tarefas; ao mesmo tempo, alguns dos nossos dias parecem demorar a passar, e o tédio toma conta da nossa mente.

Muitas vezes negligenciamos compromissos (e mesmo amizades) porque “a vida anda muito corrida”, mas investimos nossas horas em “colocar as séries em dia”, ou em algum tipo de entretenimento rápido em mídias sociais, mesmo que isso resulte em uma porção significativa do nosso dia em frente ao celular. A verdade é que nosso uso do tempo está intrinsicamente ligado com aquilo que valorizamos na nossa vida. Como cristãos, sabemos exatamente o que devemos valorizar: amar a Deus, amar ao próximo, arrependermos quando falharmos. Mas simplesmente saber tudo isso não parece ser suficiente, e muitas vezes nos perdemos em um ciclo que envolve preguiça, autogratificação, culpa e promessas vazias.

Mas a Bíblia nos dá recursos para quebrar esse ciclo. Para entender isso, vamos primeiramente explorar o que Deus espera de nós. Isso nos levará a passos práticos para viver de maneira produtiva para a glória dEle.


O que Deus espera de nós?


Existem diversas passagens que nos dão pequenos resumos do que Deus espera dos seus filhos, veja Miquéias 6.8, Mateus 12.30, 31, ou mesmo Efésios 5.15–17. Um exemplo pode ser visto na carta de Paulo a Tito:


“Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens.

Ela nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosa nesta era presente, enquanto aguardamos a bendita esperança:

a gloriosa manifestação de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo.

Ele se entregou por nós a fim de nos remir de toda a maldade e purificar para si mesmo um povo particularmente seu, dedicado à prática de boas obras.”

(Tito 2.11–14)


Não vamos fazer uma exposição detalhada aqui, mas gostaria de chamar atenção a alguns elementos básicos desse pequeno texto. Primeiro, a graça de Deus se manifesta a todos os homens, não apenas a grupos sociais seletos; assim, o poder de Deus está disponível a todos os cristãos, e é justamente isso que nos capacita a fazer aquilo que Ele requer de nós.


Em segundo lugar, Paulo ressalta que precisamos viver na expectativa da volta de Cristo, e enquanto esperamos, devemos viver vidas que reflitam o Seu caráter, cumprindo as Suas ordenanças. Talvez você se pergunte como isso está relacionado com produtividade e uso do tempo. De maneira prática, postergar alguma atividade por preguiça é uma manifestação de alguém que se acha senhor do tempo, e que garante que o “depois” irá de fato ocorrer. Essa não é uma prerrogativa nossa, pois não temos controle do que irá acontecer amanhã; só Deus tem o futuro em Suas mãos! Essa perspectiva muda completamente como nos planejamos e quais atividades priorizamos nas nossas rotinas. Viver na expectativa da volta de Cristo é viver de maneira produtiva.


Tim Challies¹ define produtividade como “administrar seus dons, talentos, tempo, energia e entusiasmo com eficácia pelo bem das pessoas e para a glória de Deus”. Isso reflete diretamente os princípios do texto anterior, e expande o conceito de “viver de maneira sensata, justa e piedosa”.


Jesus aplicou isso de maneira perfeita em Seu ministério terreno: em nenhuma ocasião vemos Jesus com dificuldades em organizar a Sua agenda, ou deixando de fazer algo importante em Seu ministério, veja Marcos 1.37, 38, por exemplo. Ao contrário, toda a Sua rotina (incluindo tempos de ensino, cura, discipulado e até mesmo descanso) era definida pela Sua missão. Seu foco era a glória de Deus e o bem daqueles ao Seu redor, tanto nas coisas pequenas como uma simples refeição, como em Marcos 2.15, como no Seu sacrifício na cruz. Ali, a glória de Deus foi elevada ao máximo na obediência perfeita do Filho (João 17.1–5), e somente por meio desse evento pessoas de todas as tribos, povos e nações receberam a vida eterna.


Cristo nos dá mais que o perfeito exemplo de uma vida produtiva; a gratidão pela Sua obra e o entendimento do propósito divino das nossas vidas nos dá a motivação necessária para buscá-la. Como vimos em Tito, a Sua graça e a atuação do Espírito nos fornece a ajuda que carecemos para alcançarmos esse alvo. Em Cristo, temos tudo o que precisamos para vivermos de maneira produtiva.


Dando passos práticos


Agora que definimos os fundamentos para uma vida produtiva, vamos à prática. Os pontos a seguir foram inspirados por um guia² sobre o assunto preparado por Gustavo Santos, um dos membros da Igreja Batista Maranata. Você vai encontrar outros materiais de apoio³ no fim deste editorial.


- Entenda o que a Bíblia diz sobre as nossas responsabilidades como cristãos. Aqui entram vários temas como trabalho, igreja, vida devocional e cuidado do corpo. Todos esses temas são parte da nossa vida cristã, e não devem ser dissociados dela. Devemos buscar ser produtivos em todas as áreas, lembrando que cada uma delas foi dada por Deus para Sua glória, para a nossa edificação e para o bem daqueles ao nosso redor. “Assim, quer vocês comam, quer bebam, quer façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10.31).


- Ame ao próximo como forma de amar a Deus. É comum cairmos na tentação de analisar produtividade simplesmente como a quantidade de tarefas que completamos durante o dia. Enquanto isso deve fazer parte da nossa produtividade no trabalho, esse não é o único ponto que devemos analisar. Olhando para nossa rotina semanal, quanto tempo foi investido em amar ao próximo de maneira prática? Quanto tempo passamos em discipulado, tendo conversas significativas, ou mesmo checando como outros membros na nossa comunidade estão lidando com as circunstâncias presentes? Quanto tempo temos investido na vida dos nossos irmãos?


- Tenha objetivos claros. Traçar objetivos vagos como “ser mais saudável” ou “ler mais a Bíblia” normalmente são pouco úteis. Ao traçar objetivos (tendo em mente aquilo que Deus espera de nós e as nossas responsabilidades), seja específico e se baseie em algo mensurável, por exemplo, “farei exercício três vezes por semana”, ou “lerei a Bíblia por 30 minutos todos os dias”. Saiba reconhecer objetivos inalcançáveis, ou aqueles que irão atrapalhar outras atividades importantes da sua semana.


- Controle a sua rotina. O primeiro passo para isso é entender para onde vai o nosso tempo. Medir quanto tempo é gasto em cada atividade é sempre uma boa ideia, e vai te ajudar a otimizar a sua agenda. O tempo que passamos usando o celular (que poderia ser aproveitado para coisas mais úteis) certamente irá te surpreender. O passo seguinte é reorganizar a sua rotina com tempos específicos para trabalho, devocionais, descanso, exercícios, refeições etc. Ferramentas como Google Calendar e limitadores de tempo de uso de aplicativos, certamente irão te ajudar a controlar melhor o uso do seu tempo. Ao listar tarefas a serem concluídas em cada atividade, lembre-se de que é sempre mais fácil lidar com várias tarefas pequenas em série do que com uma única tarefa hercúlea.


- Programe tempos de descanso e exercício. Nós fomos projetados para termos tempos de descanso (Gênesis 2.2, 3). Trabalhos com diferentes cargas físicas e mentais podem exigir tipos de descanso diferentes, e é importante reconhecer pessoalmente qual a melhor maneira de recarregar as energias. Dependendo do trabalho, é importante separar algum tempo para fazer exercícios e desempenhar uma boa mordomia do corpo (1 Coríntios 6.19, 20).


- Lembre-se de João 15.5. Sem Cristo, nada podemos fazer. Lembre-se de que tudo isso se baseia na obra dEle na cruz, e que não podemos ser produtivos para a glória de Deus sem que o próprio Deus nos capacite a isso. Dessa forma, nossa produtividade deve ser sempre firmada no alicerce da Palavra, e devocionais pessoais diárias são essenciais para firmarmos nossa mente naquilo que é realmente importante e no real objetivo de cada uma de nossas tarefas. Não queremos ser produtivos como o mundo é, mas nossa produtividade deve ser a maneira pela qual glorificamos o nome de Deus com nossas vidas.


Editorial de Petrônio Nogueira