Não provoquem inveja um nos outros

Sobre a série: Uns aos outros.

Durante o ano de 2020, temos refletido de forma intencional sobre "ser e fazer discípulos". Visitamos passagens bíblicas que instruem sobre a vida do discípulo e a prática de fazer discípulos. Reconhecemos que precisamos entender o que é um discípulo e como discipular pessoas e acabamos por redescobrir a simplicidade de nossa fé e passos práticos para o discipulado ao alcance de todos. Dentro dos assuntos tratados, é importante identificarmos as características da comunidade dos discípulos de Jesus Cristo. Ao longo da história da Igreja Batista Maranata, chamamos essas características de "mutualidades". Durante esta série traremos reflexões sobre os mandamentos bíblicos de reciprocidade, marcados pelos mandamentos conhecidos como "uns aos outros". A vida do discípulo acontece numa comunidade marcada por práticas que testemunham do caráter de Deus e Sua obra de salvação que nos transforma para o testemunho do Evangelho.


Não provoquem inveja um nos outros


Sabemos que a inveja é claramente caracterizada como um pecado pelas Escrituras (Romanos 1.29). Portanto, certamente, o cristão que sente inveja do seu próximo precisa reconhecer seu erro e se arrepender deste pecado. No entanto, existe o outro lado desse problema, que é quando o cristão intencional ou não intencionalmente provoca inveja no seu próximo — o que também é um pecado (Gálatas 5.26). Por ser um pecado “menos mencionado” (ou talvez considerado “menos feio” que a inveja em si), muitas vezes ele não é tratado biblicamente, sendo apenas trazida a acusação sobre o que sente a inveja e não sobre o que se vangloria, principalmente se não for intencional. Porém, para podermos crescer como cristãos individualmente e juntos como igreja, precisamos nos atentar para o que nossas ações provocam no próximo, mesmo que não haja intencionalidade em nos vangloriar. Com isso, gostaria de propor alguns passos práticos para identificarmos e trabalharmos o assunto:


1. Abandonar a competitividade

Muitas vezes provocamos inveja sem intenção ao nos engajarmos em conversas/atitudes competitivas. Creio que este seja um teste interessante para avaliar a nossa tendência de nos vangloriar, pois geralmente essas situações acontecem em um contexto de “brincadeira” ou de “inocência”, no qual acabamos ficando mais livres para revelar nosso coração. Posso citar, como exemplo, um pai que insiste em exaltar os feitos do seu filho, enquanto outro pai relata os do seu; alguém que enfatiza o seu sofrimento como “mais sofrido que o do outro”; irmãos que entram em discussões teológicas sem amor ou só para provar seu ponto. Vale ressaltar que devemos observar também o contexto de jogos, visto que a forma como você se mostra em um jogo é resultado de como seu coração está. Se é natural para você ser competitivo, zombar dos outros ou mesmo irritar os outros, não espere que isso esteja vindo de um coração que seja diferente em outras circunstâncias, por mais que externamente assim o pareça (Marcos 7.21-23). Aliás, dizer que é brincadeira não isenta de pecado (Provérbios 26.18, 19). Portanto, devemos cuidar para que a competitividade não seja um termo para esconder um coração jactancioso.


2. Ser intencional em descentralizar relacionamentos

Tiago traz um texto interessante que associa inveja a sentimento faccioso (Tiago 3.13–16). Já parou para pensar que a formação de facções no nosso meio também é uma forma de despertar inveja nos outros? Primeiramente, o fato de você se associar com pessoas que tenham alguma característica específica (que não a de ambos pertencerem a Cristo) favorece com que você se sinta “em casa” para exaltar tal característica, o que você não faria na presença de uma pessoa que não compartilha tal realidade. Dessa forma, cria-se um grupo na igreja que está unido não necessariamente pela causa do Evangelho, mas sim por outros motivos. Em segundo lugar, esse tipo de relacionamento mais exclusivista pode fazer com que você não tenha empatia pelas demais realidades existentes, visto que só convive com pessoas parecidas. E a beleza do Evangelho é justamente a unidade na diversidade (Efésios 2.11–16). Portanto, se você tende a se relacionar apenas com pessoas com um poder aquisitivo igual ao seu, ou com a mesma visão política, ou com o mesmo grau de instrução, ou até mesmo com pessoas do mesmo gênero e faixa etária, você pode estar dando motivo para que outros que não se encaixem nesse grupo sintam inveja. Portanto, devemos nos atentar para o que os nossos relacionamentos têm mostrado sobre o nosso coração.


3. Abraçar a modéstia de forma global

Outro aspecto nesse sentido é a questão da modéstia. Paulo orienta, por exemplo, mulheres a serem modestas no vestir e no agir para evidenciarem suas boas obras (1 Timóteo 2.9, 10), mas esse princípio não deve ser aplicado somente à vestimenta feminina. Qual reação cada item que você associa à sua imagem (roupas, acessórios, carros, casa...) causa nos outros? O que suas postagens na internet despertam nas pessoas? As histórias que você conta sobre sua vida fazem as pessoas glorificarem a Deus? A modéstia, portanto, consiste em você se conscientizar sobre os propósitos de cada uma das suas escolhas públicas, de forma que elas sirvam apenas para mostrar as boas obras que Deus efetua por meio de você, para que as pessoas possam render glórias a Ele e não a você. Portanto, devemos estar atentos à forma como a construção da nossa autoimagem tem revelado a vanglória do nosso coração.


Existem vários aspectos de nossa vida que nos permitem transbordar a vanglória que existe em nosso coração (Marcos 7.21-23), e devemos estar atentos a cada um deles. Certamente, devemos nos preocupar com a consequência horizontal e externa disso, que é a inveja causada no próximo. Contudo, devemos nos importar ainda mais com a ofensa vertical e interna que um coração jactancioso evidencia contra Deus. Assim, nossas atitudes de não provocar inveja no próximo não serão apenas esforços fúteis, e sim o resultado de um coração transformado.


Editorial de Tássio Cavalcante


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