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Nomes de Deus: Emanuel

“Aqui está Aragorn, filho de Arathorn, chefe dos dúnedain de Arnor, Capitão do Exército do Oeste, portador da Estrela do Norte, possuidor da Espada Reforjada, vitorioso em batalha, cujas mãos trazem a cura, o Pedra Élfica, Elessar da linhagem de Valandil, filho de Isildur, filho de Elendil de Númenor. Deve ele ser rei e entrar na Cidade para ali morar?”.¹ Descrições como essa nos remetem a grandes obras épicas, onde o herói recebe diversos nomes de acordo com as várias façanhas que realiza durante o livro. Nesse exemplo, os nomes de Aragorn nos relembram dos seus atos heroicos, sua linhagem e suas características; eles nos dão uma figura mais completa de quem o personagem é, criando uma expectativa para o que ele faria a seguir. Um leitor atento já deve ter notado que a Bíblia lança mão de um recurso parecido: Deus muitas vezes se apresenta como Jeová; outras como Elohim, El-Shaddai, Jeová-Shalom... e a lista é ainda mais extensa. Assim como nesse exemplo, os diversos nomes de Deus nos ajudam a entender um pouco mais do Seu caráter, Seu poder e Seus atributos. Isso é especialmente significativo para nós como cristãos; afinal, se tivermos uma imagem incorreta ou incompleta de Deus, isso nos levará a um relacionamento inadequado com Ele, e consequentemente a uma vida cristã improdutiva. Por isso, vamos passar os próximos editoriais estudando um pouco mais sobre os nomes de Deus e o que isso tem a ver com a nossa peregrinação terrena e com a nossa missão como igreja.


No editorial de hoje, vamos explorar o nome Emanuel, um termo que pode ser encontrado tanto em Isaías 7 e 8 quanto em Mateus 1. Esse nome hebraico é traduzido como “Deus Conosco”, o que se revestia de um significado especial nas passagens mencionadas acima, como veremos a seguir.


Deus conosco no Antigo Testamento...


Esse termo aparece pela primeira vez na Bíblia no livro do profeta Isaías, quando Deus o envia para encorajar (e logo depois confrontar) o rei Acaz, de Judá. É importante relembrarmos aqui que Acaz é retratado como um dos maus reis de Judá, profundamente envolvido com idolatria (2 Reis 16). O contexto aqui é de uma iminente invasão à Jerusalém vinda dos reis da Síria e das tribos do norte de Israel. O profeta é enviado com a mensagem de que esses reis seriam derrotados, e chamando Acaz a confiar no Senhor, o qual oferece um sinal para fortalecer a sua fé. Acaz, em sua hipocrisia, rejeita essa oferta; sua alternativa foi bajular o rei da Assíria com tesouros retirados do templo. A resposta de Deus mostra Sua decepção com o rei, anunciando livramento da investida síria, mas destruição por meio dos próprios assírios. E é exatamente nesse contexto de destruição que vemos Emanuel agindo.


“Então, disse o profeta: Ouvi, agora, ó casa de Davi:

acaso, não vos basta fatigardes os homens, mas ainda fatigais também ao meu Deus? Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal:

eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel.”

(Isaías 7.13, 14)


Diante da falha de Acaz, um grande sinal é destinado à casa de Davi: o nascimento virginal de uma criança. A tradução do nome e seu uso no capítulo 8 sugerem que essa criança seria associada com a habitação de Deus no meio dos homens, e que ela seria a resposta à falência da linhagem de Davi. Isso significa que, por meio dessa criança, Deus guiaria o Seu povo e o ajudaria a cumprir o Seu propósito — exatamente o oposto do que estava acontecendo no reinado de Acaz. Deus iria intervir de maneira miraculosa na história para habitar com o Seu povo, mesmo num contexto de um Israel que O rejeitava continuamente.


...também no Novo Testamento...


Mas essa profecia não foi cumprida no tempo de Acaz. Séculos depois, Mateus deixa claro que essa profecia se referia à vinda do Messias e às circunstâncias do seu nascimento.


“Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus,

porque ele salvará o seu povo dos pecados deles.

Ora, tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor

por intermédio do profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho,

e ele será chamado pelo nome de Emanuel (que quer dizer: Deus conosco).”

(Mateus 1.21–23)


Assim, a promessa de restauração do povo de Deus é baseada no derradeiro descendente de Davi, Jesus Cristo. Ele é a perfeita imagem de Deus (João 1.14, 14.6–11; Colossenses 1.15), que habitou entre nós e nos deu o modelo de Rei perfeito, superior até mesmo ao próprio Davi. De maneira ainda mais significativa, Mateus conecta o cumprimento dessa profecia a “salvar o povo dos pecados deles”; de fato, nossos pecados nos separam de Deus por causa da Sua santidade, e somente um sacrifício perfeito poderia nos justificar diante dEle e restaurar esse relacionamento. Assim, Deus só pode ser conosco por meio do sacrifício de Cristo, que nos limpa dos pecados e graciosamente nos dá o título de filhos de Deus. Todas as bênçãos de Deus que hoje desfrutamos como cristãos só são possíveis por meio da obra de Cristo. Deus só pode ser conosco, e não contra nós, por causa dessa obra.


...e até o fim dos tempos.


Curiosamente, o fim do Evangelho de Mateus ecoa essa verdade pela boca do próprio Jesus: “[...] E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mateus 28.20b). Jesus não esteve apenas com Seus discípulos no primeiro século, Ele também está conosco hoje por meio do Espírito Santo (João 14.16-26), tanto individualmente (no nosso relacionamento pessoal com Deus), quanto coletivamente (na nossa vida como igreja), e Sua obra continua sendo feita nos nossos corações.


Porque Deus é conosco e enviou o seu Filho para nos salvar dos nossos pecados, temos comunhão com Deus e comunhão com nossos irmãos em Cristo. Porque Deus é conosco, o Espírito nos santifica, nos moldando à imagem de Cristo. Porque Deus é conosco, podemos lutar contra o pecado, tendo a certeza de que o próprio Deus nos dá força para batalhar. Porque Deus é conosco, podemos lutar contra a solidão, sabendo que o mesmo Espírito que habita em nós habita nos nossos irmãos, e podemos desfrutar do amor fraternal como planejado por Ele. E finalmente, temos a garantia de que Emanuel será Emanuel (Deus conosco) até o fim dos tempos. Jesus estará conosco e cumprirá Sua grande comissão até o fim.


Editorial de Petrônio Nogueira


¹ J. R. R. Tolkien, “O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei”, Editora Martins Fontes.

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