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Resolvendo as Tretas Que Nunca Acabam

Ao sermos chamados por Cristo, todos tivemos nossas mentes renovadas espiritualmente; nossas prioridades, afetos e até como interpretamos a vida de maneira geral são viradas de pernas para o ar. E no meio dessa transformação, é seguro afirmar que muitos de nós tivemos uma surpresa: “Agora que fui salvo por Cristo, e vivo no meio de outros salvos por Cristo, é impossível que conflitos ocorram… certo?”. Bem, nossa experiência não confirma essa expectativa. O fato é que conflitos ocorrem (em diferentes escalas) na vida de todo crente, e isso faz parte de vivermos lidando com o pecado remanescente, ou simplesmente de vivermos num mundo caído. Com isso em mente, algumas perguntas surgem naturalmente: será que a Bíblia nos traz qualquer instrução sobre como lidar com essas situações? Será que conflitos são sempre uma coisa ruim, e sempre levam à destruição de relacionamentos? Existe alguma maneira de glorificar a Deus, mesmo naqueles conflitos mais intensos?


Para responder a essas questões, iremos naturalmente nos voltar para as Escrituras em busca de orientação. Louvado seja Deus por termos tantas informações sobre algo que é tão comum às nossas vidas! Narrativas bíblicas retratam diversas situações de conflito, onde podemos tirar lições valiosas sobre como personagens lidaram com essas situações, e quais foram as consequências dessas ações. Mas a didática bíblica não se baseia somente em exemplos de sabedoria; ela também nos dá instruções diretas sobre como lidar com conflitos de maneira a trazer não só benefícios às partes envolvidas, mas também glória a Deus. Ao ler esse editorial, meu desejo é que você tenha uma única verdade em mente: conflito é uma das maneiras pela qual o nosso Deus Soberano trabalha em nossos corações para identificar pecados e nos fazer mais parecidos com Cristo.


Exemplos das narrativas bíblicas


Conflitos não são eventos particulares da nossa vida moderna, eles sempre estiveram presentes nas interações humanas desde a entrada do pecado no mundo. Inclusive, uma das primeiras interações de Adão e Eva retratadas em Gênesis 3 pode ser caracterizada como um conflito! A dinâmica de transferência de culpa mostrada nos versículos 12 e 13 segue o mesmo mecanismo “mas ele disse/fez…”, “mas ela disse/fez…” que vemos em qualquer discussão de casal — nenhuma das partes assume a responsabilidade sobre suas ações, e ambas colocam o foco em algum fator externo. Porém, a intervenção divina é certeira: Deus lida individualmente com cada parte envolvida, mostrando que nenhuma delas é inocente. Mas talvez uma das partes mais interessantes desse evento está nos versículos 15 e 21. Ao invés de simplesmente determinar as consequências do pecado do casal, Deus mostra a Sua graça e provisão ao prometer a vinda do Messias (que iria resolver o problema do pecado definitivamente) e ao vestir Adão e Eva de maneira apropriada.


A maior lição prática (no contexto de conflitos) desse evento é sobre como encarar situações como essa. Enquanto Adão e Eva olhavam um para o outro (e para fatores externos, como a serpente) como a fonte dos seus problemas, nenhuma solução poderia ser encontrada. A solução, em forma de promessa futura e provisão presente, só veio quando Deus virou os olhos deles para Si. Conflitos normalmente têm origem no pecado; portanto, é essencial esquadrinharmos nossos corações e sondar como as nossas motivações estão alimentando aquele conflito. Mas acima de tudo, quando somos tentados a prender nossa atenção no outro, devemos nos lembrar de olhar para Aquele que deu a solução final para conflitos de qualquer natureza; Ele é a fonte de toda graça e provisão.


Os eventos logo depois da entrada do pecado no mundo modelam o comportamento humano por toda a Bíblia. Ainda em Gênesis vemos conflitos entre os servos de Abraão (e depois de Isaque) e Abimeleque, entre Esaú e Jacó, entre José e seus irmãos, entre Saul e Davi, entre Amnom e Absalão e muitos outros. Cada um desses episódios envolvia inveja, ganância, lascívia e justiça própria — conflitos têm origem em pecados no nosso coração. Mas uma das passagens que mostra essa dinâmica de maneira mais clara é a parábola do conservo, narrada em Mateus 18.21–35. É bom lembrar que o foco de Jesus nessa parábola é ensinar sobre o perdão, que é um dos pontos essenciais na resolução de conflitos. O conflito aqui se dá entre um servo (cuja dívida imensa havia sido perdoada pelo rei) e um de seus conservos, que lhe devia uma quantia comparativamente pequena de dinheiro. Ao mandar seu companheiro para a prisão e exigir que toda a sua dívida fosse paga, ele revelou um coração cheio de justiça própria, esquecendo do perdão que havia recebido do rei. Na parábola, o servo mau é chamado de volta à presença do rei, que confronta seu pecado e o condena a pagar a sua dívida por completo. Mas vamos pensar num final alternativo para a parábola: imagine agora que este servo saiu da presença do rei, mas a sua graça e perdão recebidos do rei, se mantiveram na sua mente constantemente. Certamente sua atitude para com seu conservo seria muito diferente! Perdão completo seria estendido e não haveria conflito. Ambos os servos seriam beneficiados pela graça do rei, que seria glorificado no processo. O mesmo se aplica para nós: nosso relacionamento com o Rei deve moldar nosso relacionamento com nossos irmãos, que deve ser envolto de graça e misericórdia diante de ofensas cometidas contra nós.


Instruções bíblicas para resolução de conflitos


O Novo Testamento é repleto de instruções essenciais para o nosso relacionamento como cristãos. Uma passagem-chave para resolução de conflitos é Tiago 4.1–10. Tiago afirma que contendas têm suas origens no nosso coração (cobiça, inveja e egoísmo) e que a solução passa por arrependimento real. Entender a profundidade do nosso coração envolve entender que nossa visão da situação pode estar contaminada por motivações erradas; devemos buscar a humildade que vem do Espírito (Filipenses 2.1–11). Pela própria natureza de conflitos, que foca sempre no eu (em oposição à outra pessoa), pensar no que Deus tem a ver com essa situação é, por vezes, um grande desafio.


Aqui estão algumas perguntas (formuladas originalmente por Tim St. John) que podem nos ajudar nesse processo:


  • Quem é Deus no meio dessa situação? Quais são as verdades sobre a Sua misericórdia?

  • Como podemos nos voltar para Deus em busca de esperança quando pessoas pecam contra nós?

  • Como a misericórdia divina fortalece os nossos corações para estender o perdão aos outros?

  • De que maneiras específicas a misericórdia de Deus nos ajuda a ver um ao outro de maneira mais clara?

  • Como o amor a Deus e ao próximo molda nossos próximos passos nesse relacionamento?

Nosso objetivo nunca deve ser mudar a outra pessoa, ou moldá-la segundo os nossos próprios desejos (mesmo que eles sejam legítimos). Ao contrário, devemos buscar sempre agradar a Deus, entendendo que Seu objetivo é nos moldar à imagem de Cristo. Conflitos (mesmo sendo situações difíceis) são uma grande ferramenta nas mãos de Deus para revelar mais sobre o nosso coração e nos fazer amadurecer como cristãos. Editorial de Petrônio Nogueira

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